O objetivo de muitas pessoas é fazer exatamente o que o título desta matéria sugere. Afinal, todos temos obstáculos a serem vencidos e todos somos bons em alguma atividade e, por isso, queremos apresentá-la para outras pessoas. No entanto, para pessoas com deficiência este famigerado objetivo pode ser ainda mais trabalhoso de alcançar. Não porque elas duvidem delas mesmas, mas porque a sociedade ainda, de certa forma, duvida.
Porém, quando o sentimento de dar continuidade a alguma ação é muito maior que todas as outras questões que acontecem no seu dia a dia, não há outra saída senão, de fato, fazer o projeto acontecer. Este é o sentimento da professora, psicopedagoga e coreógrafa, Ana Luiza Ciscato, à frente do grupo APAEDança Floripa, que apresentou o espetáculo Livre Viver, recentemente, no Festival de Dança de Joinville 2022.
Para além do grupo na APAE Floripa, Ana mantém, também, o – pioneiro em Santa Catarina -, Lápis de Seda Cia. de Dança Inclusiva. Na entrevista abaixo, ela conta sobre as conquistas, os obstáculos e o esforço para que os projetos aconteçam, dia após dia.

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O espetáculo Livre Viver é composto por 14 bailarinos e bailarinas. Como é a experiência de levá-los para outra cidade e qual a sensação deles, que você percebe, ao se apresentar para um público diferente do que eles estão acostumados?
Participar do Festival de Dança de Joinville é um sonho para qualquer pessoa que faz dança no Brasil. Para bailarinos com deficiência, esse sonho se potencializa, porque estão “invadindo” o espaço do “normal”. As dificuldades da inclusão da pessoa com deficiência têm muito mais a ver com a sociedade em geral do que ela mesma. Essa comunidade ainda é vista com uma certa condescendência, e isso reflete muito o caráter capacitista que a cerca.
Estar nos ambientes que cercam o maior festival de dança do mundo é uma experiência muito motivadora. Todos nós da equipe e do elenco sentimos que nossos esforços na direção de ampliar a visibilidade das pessoas com deficiência e mostrar as capacidades dessas pessoas foram validados.
É um orgulho subir naquele palco, estar no meio daquelas pessoas, mostrar nosso trabalho para um público grande e antenado nas novidades do mundo da dança. Sentimos que estamos no caminho certo, e que seguimos no caminho certo nos últimos anos, apesar de todas as dificuldades que tivemos que enfrentar, em especial a pandemia da COVID-19.
Algum dos alunos da dança de inclusão seguiu a carreira artística?
A partir do trabalho na APAE Florianópolis, surgiu a oportunidade de começar a Lápis de Seda Cia. de Dança Inclusiva, uma companhia de dança que tem como foco a inclusão de pessoas com e sem deficiências, e a profissionalização desses bailarinos. Do início desse trabalho para cá, quatro dos bailarinos do grupo da APAE já atuam como profissionais na área.
Ana, além da vontade, o que mais precisa para dançar?
Assim como todo profissional da arte, o bailarino precisa de muito mais do que vontade para seguir carreira. É preciso uma dedicação muito grande, muito esforço e disciplina no dia a dia, todos os dias. O que vemos no palco é uma parte muito pequena de uma escolha de vida.
No caso da pessoa com deficiência, ela passa por um processo de desenvolvimento de uma série de aspectos da vida. Por meio do corpo, podemos acessar áreas do cérebro que atuam no desenvolvimento social, emocional e cognitivo. O trabalho físico é muito importante, mas o que tentamos é atingir as diversas inteligências que vêm do corpo: sentido de pertencimento, motivação e curiosidade pelo mundo. Aspectos que as pessoas que não têm deficiências aprendem desde cedo, mas é um aprendizado historicamente negado à população com deficiências.
O nosso trabalho busca retomar esse processo de autodescoberta. Ou seja, a dança é a porta de entrada para uma vida com mais autonomia, mais conhecimento do próprio corpo.
Tem outros projetos parecidos com o APAEDança e o Lápis de Seda em Santa Catarina? E no Brasil e no mundo? Se sim, vocês já fizeram algum tipo de parceria? Como foi?
As APAEs de todo o Brasil normalmente promovem um trabalho de dança com seus alunos, mas acho que a ideia de uma companhia de dança com essa proposta de profissionalização é bem pioneira no nosso estado. Temos conhecimento de outras companhias, poucas, aqui no Brasil e internacionais.
Em 2012, tivemos a oportunidade de fazer uma parceria muito bem sucedida com companhias e instituições inclusivas do Reino Unido, que culminaram em um trabalho em grupo chamado “Breathe – Battle of The Seas”, apresentado na abertura dos Jogos Náuticos da Olimpíada de Londres, na cidade de Weymouth, que fica na costa sul da Inglaterra, na região de Dorset.
Para nós, foi um aprendizado imenso ver como temos problemas muito similares nos dois países, mas também observar os métodos utilizados para melhorar a acessibilidade e o alcance das políticas públicas voltadas à população com deficiência. Conseguimos estabelecer uma química muito boa entre os profissionais, como o diretor do espetáculo Jamie Beddard, que tem Paralisia Cerebral, e a autora da peça, Alex Bulmer, que tem deficiência visual, além de Louise Karetega e Deborah Baddoo, com quem tive o prazer de co-coreografar o espetáculo.
Nossas experiências com esse processo de criação estão disponíveis na série documental “Breathe Diário de Bordo”.
Quais os maiores desafios para liderar e dar continuidade aos projetos de dança inclusiva?
Viver de arte no nosso país, nesse momento, é muito difícil. Qualquer profissional da nossa área pode te confirmar isso. Mas, para nós, é muito gratificante, apesar das dificuldades. Esse trabalho é muito legal, porque o que a gente se propõe a fazer é criar formas de autonomia, em que essas pessoas com e sem deficiências consigam atingir estágios de desenvolvimento novos a cada encontro. A ideia é ir no caminho oposto desse assistencialismo ou dessa condescendência que eu mencionei anteriormente.
Eu me orgulho muito desse trabalho, dos bailarinos e dessa vontade que eles têm de superar as suas dificuldades e mostrar para o mundo suas habilidades, mostrar para o mundo as suas histórias, as suas contribuições para a sociedade. Eles me inspiram demais. E nós seguimos trabalhando, apesar de tudo.
Trabalhamos duro durante o período de isolamento relacionado à pandemia da COVID-19, remotamente, e conseguimos sair desse momento difícil com dois projetos grandes e bem sucedidos nas mãos. Foi importante para nós ver que esse trabalho não vai parar, não pode parar, seja lá qual for o obstáculo. Hoje, temos muito a perder se isso acabar. Em resumo, seguimos a todo vapor, aconteça o que acontecer.
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