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Coluna Entretenimento | Entrevista Milena Moraes e Renato Turnes sobre Cena_Doc
07 de Fevereiro de 2023

Coluna Entretenimento | Entrevista Milena Moraes e Renato Turnes sobre Cena_Doc

Espetáculos, formações, residência e incubadora artística, conheça o mais novo projeto artístico da Cia La Vaca. Leia a entrevista e divirta-se!

Por Entretenimento 07 de Fevereiro de 2023 | Atualizado 07 de Fevereiro de 2023

Memória e formato documental no mais novo projeto da Cia La Vaca

O Cena_Doc acontecerá de fevereiro a outubro de 2023 e conta com espetáculos, oficinas, residência artística e incubadora de projetos. O lançamento será nesta quinta-feira (9), online

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Renato Turnes em “Homens Pink” | Crédito da foto: Cristiano Prim

 

Com o objetivo de promover programação artística e processos de pesquisa e formação de forma gratuita e democrática, a Cia La Vaca apresenta a primeira edição do Cena_Doc. De acordo com a atriz e produtora cultural da Cia. La Vaca, Milena Moraes, o evento oferece uma programação com obras em linguagens diversas, além de pesquisas e processos formativos que investigam as múltiplas possibilidades de criação artística a partir de procedimentos documentais.

O ator e diretor Renato Turnes complementa que, lá em outubro, no final do evento, acontecerá uma residência artística e uma incubadora de projetos. “Os artistas que têm trabalhos que de alguma forma dialogam com o documentário, poderão trabalhar junto com a gente, durante uma semana, aprimorando e aperfeiçoando os projetos artísticos, além de pensar na gestão, produção e viabilização das ideias”.

Confira conversa entre os artistas (que se complementam o tempo todo!) e a coluna Entretenimento:

 

Oi, Milena e Renato! É um prazer conversar com vocês, dois grandes nomes da cena cultural em Santa Catarina. Aliás, há quanto tempo vocês trabalham juntos e como surgiu a ideia do cena_doc?
Então, a gente estreou como Cia La Vaca em 2008 com o espetáculo Mi Muñequita, mas nossa história é de antes da companhia, vem do cinema e do teatro. Resolvemos seguir trabalhando juntos, nos associando aos profissionais e artistas com quem curtimos trabalhar, para realizar nossos projetos.

O Cena_Doc é o projeto mais novo da companhia que surgiu de uma vontade nossa de organizar um evento, uma espécie de festival em que a gente pudesse sugerir para o público atrações em diversas linguagens artísticas. Teatro, cinema, fotografia… então começamos a formatar o tipo de evento que gostaríamos de promover. Como trabalhamos há algum tempo com a linguagem do documentário no cinema e no teatro, pensamos que seria interessante bolar um evento que oferecesse um panorama dessa abordagem documental que está muito presente nas artes contemporâneas. Assim, surgiu o Cena_Doc.

Essa primeira edição é focada no trabalho que a companhia tem produzido nos últimos tempos. Então vamos apresentar o espetáculo e documentário “Homens Pink”, “O Amigo do Meu Tio” e diversas outras ações de apresentação, formação e interação com o público. Temos, inclusive, uma residência artística e uma incubadora de projetos previstas para outubro.

 

A intenção de vocês é sugerir que os artistas vasculhem suas memórias. Qual é a relação entre essa linguagem documental com as memórias das/os artistas? Como é essa relação, essa busca?
A ideia é, basicamente, atualizar memórias. Especificamente para a primeira edição desse projeto, essas memórias dizem respeito bastante à comunidade LGBTQIA+, justamente porque essa comunidade corre o risco de apagamento de memórias. Então, “Homens Pink” e “O Amigo do Meu Tio” entram nesse lugar de recuperação, de reparação histórica, para contar histórias que, talvez, se não forem contadas acabam caindo no esquecimento e a gente fica sem conhecer o que aconteceu antes da gente.

Então acho que o documentário sempre traz um pouco essa ideia de atualizar a memória, mas também de propor linguagens atuais, fazer com que esse tempo que passou, através de uma elaboração sobre o que ficou, esses documentos e os rastros que ficaram, possam ser reelaborados e apresentados na contemporaneidade de uma forma nova, atraente.

A gente entende que esse já é um movimento que as artistas e os artistas vêm fazendo, de trabalhar com memória não necessariamente autobiográfica. Também temos pensado bastante sobre o desdobramento e a expansão do projeto e do que a gente produz a partir dele, para que a expressão não fique restrita à performance ou ao cinema. Temos o exemplo da artista cubana Ana Mendieta que trabalha com documentos e com autobiografia nas artes visuais desde os anos 70/80.

Quando o Renato fala da incubadora e da residência artística, a ideia é instigar a vinda de artistas que tenham um projeto que parta de um procedimento documental como disparador de um processo de criação. Mesmo que seja uma ideia, que esteja em fase muito inicial, precisa ser artistas que tenham esse interesse pela memória, por trabalhar com documento, a fim de desenvolver seus projetos. Seja ele uma exposição fotográfica, uma performance… entende?

 

Sim! Porque não é uma coisa quadradinha, né? É realmente o contrário, uma foto ou um vídeo que a pessoa assista pode fazer ela lembrar de alguma coisa e aquela memória vai se transformar na sua arte. Aquele momento histórico, seja pessoal ou que afete o coletivo, ficará documentado e expresso por uma linguagem artística.
Exatamente. O documento não é só algo que foi registrado através do jornal ou de um filme. Ele pode ser um testemunho, um acervo de objetos pode registrar a história. A ideia é trabalhar o documento de outras maneiras também.

A gente, como mulheres, por exemplo, tem situações sociais que são comuns a nós. Então algo que eu tenha registrado para mim, pode refletir para o todo. Não é sobre a artista somente, mas sobre toda uma comunidade, pensando neste exemplo especificamente… pode ser que a intenção da/o artista seja outra na hora de criar sua arte!

 

E daí amplia, né? A gente passa a olhar para o que está ao nosso redor e aí trazer para perto. Muito interessante a ideia de ressignificar o documento! E essa forma de atualizar a linguagem também é trazer para o formato online?
A gente também tem que pensar no alcance do que está propondo, o formato híbrido permite que o trabalho tenha um alcance maior, inclusive não só no Estado de Santa Catarina, mas também em outros lugares.

O filme “Homens Pink”, por exemplo, estreou no FAM 2020, no ápice da pandemia, quando grande parte dos festivais se adaptaram para o formato online. Então a gente entende que é possível, mas nós teremos também as exibições presenciais, no caso do “Homens Pink”, que está inteiro neste projeto (o documentário e o espetáculo), a gente tem essa possibilidade de uma experiência expandida da audiência. Você pode assistir o documentário (online) e depois ver o espetáculo presencialmente, são obras que partem do mesmo lugar mas que são bem distintas entre si. Depois, a gente quer ouvir realmente as pessoas que tiveram essa experiência para saber como foi.

Além disso, em próximas edições queremos ampliar essa cartela de obras e ações oferecidas ao público, trazendo obras de outros artistas e grupos de outros lugares. Vamos trabalhar para que o evento se consolide ao longo do tempo, para que ele vire uma referência mesmo, um ponto de encontro e de formação também. Por isso a ideia da incubadora de projetos lá em outubro.

Estimular que outras pessoas desenvolvam projetos com essa ideia do documento e também de lugares entre linguagens é uma característica da arte contemporânea. E é uma atualização da arte. Misturar cinema com teatro com fotografia com performance e artes visuais, sair um pouco do que é muito estanque: isso é cinema, isso é teatro, isso é arte visual. A gente vive um momento onde esses limites são testados o tempo todo. O documentário circula por todos esses gêneros e entre uma linguagem e outra.

 

E vocês acham que é um projeto inovador, principalmente a ideia da incubadora de projetos artísticos?
Então, estamos exatamente no momento para estimular que projetos desse tipo surjam e se desenvolvam. Temos colegas aqui em Santa Catarina que trabalham com processos de mentoria, como o pessoal da Itajaí Criativa, da Cia. Téspis, o Cena 11… o diferencial da nossa ideia é o lance da incubadora mesmo.

Acompanhar o processo de criação artística, viabilizar os projetos pensados a partir dessa uma semana em que as/os artistas vão compartilhar o dia a dia comigo e com a Milena, durante essa residência artística. Vamos criar juntos e pensar no processo de viabilização juntos e, assim, ter as duas coisas dialogando. Porque não adianta a gente pensar em um projeto e não encontrar meios de torná-lo vivo, concreto.

Quem sabe na próxima edição, possamos receber projetos que foram aperfeiçoados nesta residência. A gente tá pensando, também, no diálogo presencial com os nossos pares aqui do estado. É importante encontrarmos artistas e coletivos para falarmos de modos de existência, de produção e de como a gente resiste.

 

Vocês vão ficar gestando projetos e de certa forma acompanhar o desenvolvimento deles!
Pois é bem isso mesmo! (alerta de spoiler) Já vou até adiantar aqui que o final desse processo todo prevê a criação de duas dramaturgias originais da companhia. Serão dois novos projetos solos que têm essa prerrogativa de trabalhar com o documento, com procedimentos documentais, e no finalzinho do ano abrir esses processos de criação.

Temos muita coisa para 2024 e será possível acompanhar todo esse processo pelo @cenadoc e pelo site porque vamos alimentando essas mídias, também, no decorrer desses meses.

 

E para finalizarmos, nesta quinta-feira (9/2), às 20h, vai rolar o lançamento do projeto, no YouTube. O que está programado para esta noite e o que o público pode esperar?
Muito carisma! (risos). Renato e eu apresentaremos o Cena_Doc, teremos convidados muito importantes para que esse projeto aconteça e, em seguida, faremos a transmissão do documentário “Homens Pink”.

Depois, sexta, sábado e domingo (10, 11 e 12) estaremos em cartaz com a performance de mesmo nome, no Sesc Prainha, também às 20 horas. A entrada é franca e as pessoas devem chegar uma hora antes para poder retirar os seus ingressos. No sábado teremos acessibilidade em Libras.

Queremos agradecer muito a Hidroluna Saneamento que é a nossa patrocinadora através do programa de incentivo à cultura que é a lei de mecenato Santa Catarina – que esperamos que se mantenha a partir de agora, que todos os programas que tem sido bem sucedidos continuem acontecendo no Estado -; parte da programação do Cena_Doc é promovida através do edital Elisabete Anderle de estímulo à cultura – o qual também estamos esperando que a edição de 2023 aconteça. Todos eles pelo Governo do Estado de Santa Catarina, Fundação Catarinense de Cultura.

É isso! Esperamos todos nas programações ques estão no site e nas redes sociais:

https://www.cenadoc.com/
https://www.youtube.com/cialavaca
@cenadoc
@cialavaca
@milenacruzmoraes
@renatoturnes

 

 

Crédito da foto em destaque para Cristiano Prim.

 

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