Entrevista com Maestro José Nilo Valle
Fundador da OSSCA conta sua história e fala sobre os 30 anos da Sinfônica de Santa Catarina

Orquestra Sinfônica de Santa Catarina volta a se apresentar em 25 de fevereiro. | Crédito da foto: Cristina Galo
Em 2023, a Orquestra Sinfônica de Santa Catarina comemora 30 anos de trajetória. A temporada começa no próximo dia 25, com o concerto Grandes Performances, às 20hs, no Teatro Ademir Rosa (CIC), em Florianópolis. A coluna entretenimento conversou com o Maestro José Nilo Valle, fundador da OSSCA, que contou um pouco da sua história.
Com um currículo extenso, graduação em Curitiba (PR), mestrado e doutorado na Universidade de Washington (EUA), o Maestro é o diretor artístico do projeto. A primeira apresentação não seguirá os padrões usuais adotados pelas orquestras do mundo todo com ABERTURA – CONCERTO PARA SOLISTA E ORQUESTRA – SINFONIA. Serão dois momentos conduzidos com técnica sem deixar de lado clássicos mais populares da música universal, tais como Strauss, Brahms, Bizet e Offenbach.
Durante a conversa, o Maestro Nilo, como prefere ser chamado, lembrou da força magnífica de crianças e jovens para um futuro mais cultural, o sonho de criar uma OSSCA Jovem e reforçou a frase que ele mesmo criou: “A maior glória de um homem é poder contribuir com a sociedade com aquilo que ele é mais capaz.¨.
De acordo com ele, a música e a arte são os ingredientes mais importantes da vida. “Eu vejo o quanto o músico é grato por estar tocando e este é o prêmio maior, estar contribuindo com o que posso e o que sei”. Ele explica, ainda, que de uma certa forma, essa frase o consola e mostra o motivo pelo qual ele segue na música, quando não consegue o reconhecimento financeiro ideal.
Maestro José Nilo Valle, fundador da OSSCA
Crédito da foto: divulgação
O seu conhecimento musical é reconhecido no Brasil e nos EUA, onde já se apresentou em grandes orquestras. O senhor lembra qual foi a primeira vez que entendeu que seu caminho seria na música?
Arte pra mim é uma consequência de uma chamada espiritual, porque ser artista não é uma escolha. O encantamento veio do berço e eu acalentei isso ao longo da minha carreira, segui os passos da minha própria intuição, daquilo que me era oferecido dentro da minha família que veio da Itália e foram os primeiros habitantes de Nova Trento.
Entre eles, um dos meus antepassados, o Francisco Valle, esteve na formação original da Banda Musical Padre Sabbatini, fundada em 1889, e da qual eu também fiz parte. Então posso dizer que sempre gostei de música. Gostava muito de escutar o Diário da Manhã, atual CBN, tocando clássicos como Tchaikovsky, Beethoven… adorava escutar os seresteiros fazendo serenatas na época natalina, em Nova Trento.
Além de me apresentar em desfiles com a banda, também tocava instrumentos dentro de casa… bandolim, violão, violino, órgão… Eu gostava tanto de música que ficava ouvindo despreocupado e meus familiares diziam pra eu ir trabalhar, porque eles não enxergavam a arte como profissão.
E como foi que virou profissão pra você?
Com muita vontade, peguei minha mala e fui pra Curitiba, de ônibus. Comecei a fazer minhas graduações, fui professor na faculdade onde me formei e estudei com um maestro italiano, o que me deu mais vontade de reger mesmo. Estudei composição na faculdade de Bellas Artes do Paraná, que foi onde minha árvore musical se sedimentou. Depois fui para o Rio de Janeiro e as oportunidades e convites foram chegando.
Na arte estamos sempre buscando criar mais, aperfeiçoar mais, como uma obra musical que nunca está acabada como “deveria ser”. Então essa formação toda foi uma busca daquilo que eu pensava que seria um ponto de chegada…
… e os EUA, para você, era um ponto de chegada?
Ah, lá eu vivia de música, até porque tinha uma bolsa de estudos dos governos brasileiro e catarinense através da Capes. Então fui para lá com a ideia de voltar. Quando terminei o Mestrado e o Doutorado, tive convites para ir para a Itália e até voltar para o Brasil e ficar em Minas Gerais, mas recusei e voltei para Santa Catarina. Assim, terminei o contrato com a Capes e acabei iniciando a Orquestra Sinfônica de Santa Catarina que este ano está completando 30 anos.
Já tive momentos em que pensei em voltar para os EUA, mas a OSSCA sou eu e vice-versa. Tenho receio de desistir da OSSCA e ela não aguentar muito mais tempo. É um trunfo ter sido responsável pela criação da Orquestra.
Além de deixar a música erudita mais acessível, como o seu ofício contribui para a sociedade?
Ainda estamos em uma sociedade que não absorveu seu artista socialmente e com reconhecimento financeiro. Muitos músicos eruditos pegam seu instrumento e vão para algum ponto turístico de Florianópolis para tentar um dinheiro extra para o final do mês. Tem centenas, milhares de músicos que não podem contar com o retorno da arte para poder sustentar suas famílias. Hoje em dia, esse é o principal desafio que nosso artista enfrenta.
Eu mesmo, com toda minha formação, ainda luto demais para poder viver de música. A nossa sinfônica ainda não tem a estabilidade de outras orquestras brasileiras. Não podemos dizer que está tudo bem e que vivo abastado. Não, a vida do artista é muito sacrificada.
Por isso, a educação é a salvação. Os jovens precisam ter acesso à história da música e da arte que são a história da humanidade, dos povos, e que são de uma riqueza imensurável. Estamos para implantar um novo projeto que busca fomentar a formação musical de crianças e jovens, até para ocupá-los com coisas sérias e benéficas.
Em 2023 a OSSCA completa 30 anos! Parabéns. O que está programado para comemorar estas três décadas?
No dia 25 de novembro deste ano vamos completar estes 30 anos. No dia 25 de novembro de 1993 subíamos no palco do CIC, em Florianópolis, com a estreia da Orquestra Sinfônica de Santa Catarina. Então, no dia 25 de fevereiro de 2023, teremos o primeiro evento de uma série de comemorações.
Serão quatro grandes performances dentro do “Bravo Santa Catarina”, projeto aprovado via Lei Rouanet, que prevê apresentações em Fevereiro, Junho, Setembro e Novembro. Entremeando essas performances, acontecerão os especiais: Pink Floyd, Elvis Presley e Iron Maiden, além de palestras, idas às escolas com a orquestra, série de música de Câmera, exposição com fotos e vídeos, homenagens na ALESC… enfim, o ano todo recheado de grandes eventos comemorativos a esta festividade de 30 anos da orquestra.
Para a primeira apresentação, no dia 25 de fevereiro, teremos aproximadamente 70 músicos no palco e dividimos em duas partes o espetáculo: a primeira mostrando a qualidade sinfônica da orquestra; e a segunda entram gradativamente os naipes, cordas, madeiras, metais e percussão, e vamos mostrando os músicos que estão há mais tempo na orquestra, para homenageá-los.
Minha intenção é levar alegria para o público. Então vamos apresentar obras como o “Poema Sinfônico Zaratustra”, “O Planeta Júpiter”, o trecho final da sinfonia “Novo Mundo”, além do hino de Santa Catarina, a Ópera Guarani, obras de Tchaikovsky…. Vamos mostrar os sucessos que tivemos na nossa história. Que tenhamos bastante plateia para poder festejar conosco!
Ossca – Grandes Performances
Quando: 25 de fevereiro
Horário: 20h
Local: Teatro Ademir Rosa – CIC – Florianópolis
Crédito da imagem em destaque para Rebecca Jasso por Pixabay
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