O artista François Muleka está cada vez mais inserido no audiovisual. Na próxima quinta-feira (22), ele estreia seu mais novo curta, o Valéria Divina e as Histórias do Vovô Moju, na 2ª edição do Festival Audiovisual Latino-Americano, que será de 21 a 24 de junho, em São Francisco do Sul.
A jornalista Leticia Bombo, que assina a Coluna Entretenimento, teve a honra de fazer a primeira entrevista – exclusiva – com o artista, que falou sobre como conheceu a história de Valéria Divina.
Como conta a sinopse, Valéria é uma premiada artista negra que sempre sonhou em ser contadora de sua própria história. Inspirada em seu herói de infância, o aventureiro Vovô Moju (veterano da guerra do Paraguai), Valéria narra de forma bem humorada e muito sensível, memórias bonitas de uma criança com deficiência física em busca de suas origens na fabulosa Ilha do Bom Jesus, no Rio de Janeiro, com riqueza estupenda de detalhes.
François contou que depois de estrear como diretor no Florianópolis Audiovisual Mercosul, em 2021 com o documentário “Entrando no País das Maravilhas”, onde pode voltar em 2022 com o “Precioso”, foi que ele começou a ficar ainda mais interessado pela realização audiovisual. Acompanhe a conversa e divirta-se!
“A demanda da expressão é maior que o compromisso com uma certa linguagem, estou aberto para ser atravessado pelas expressões possíveis.” – François Muleka | Crédito da imagem: Daniel Guilhamet.
Como tem sido esse impulso de produção no audiovisual, François?
Então, começou com uma imersão muito natural em um arquivo que um amigo, o Francis Pedemonte, resgatou, de várias noites em Santa Catarina, nos anos 2013/2014. Por lá, achei a história de uma música minha e entendi que ela tinha muitas versões. Então fiz esse curta que foi selecionado para o FAM, para minha alegria.
A primeira edição que participei foi à distância, porque ainda estávamos no período de pandemia, mas também participei do evento de 2022 com o filme “Precioso”. Neste ano, pude estar nas oficinas, conhecer pessoas da área e comecei a criar grupos de trabalho e colaboração informais.
E no início de 2023, eu descobri esse filme da “Valéria Divina…”, quando fui conhecer minha sogra.
Conta mais sobre como você descobriu a história?!
No dia em fui conhecer minha sogra, no Rio de Janeiro, tive um atraso na viagem e acabei chegando na casa dela com pouco tempo para eu, minha companheira (a Sara) e a mãe dela conversarmos. Logo minha companheira teve que sair e eu fiquei sozinho com a Valéria. Daí começamos a conversar e chegamos ao nome do Vovô Moju, que é o avô de Valéria.
Eu achei interessante o nome dele, me soava bonito, e lembrei que a Sara já havia me contado algumas histórias sobre ele. Em algum momento, comentei com a Valéria que aquela história daria um filme! Mas, imagina, você está conhecendo a sogra naquele dia e já começa a fazer projetos e propor filmes, parece meio estranho, mas o projeto realmente foi mais forte.
(risos) Imagina, ela vai achar que você é viciado em trabalhar!
(risos) … é curioso, porque nem sempre a gente acha que a história da nossa vida daria um filme, achamos isso, em geral, da vida dos outros. Mas a Valéria tinha o sonho de repassar para os netos as histórias da infância dela. Ela é uma artista negra já aposentada, também uma pessoa com deficiência física, como o avô, e que conta essas histórias, essas lembranças que aconteceram na Ilha do Bom Jesus, onde hoje tem a Universidade do Rio de Janeiro.
Como foi o processo de contar essas histórias, essas lembranças que são dela?
O que acho muito interessante é como, de algum jeito, eu fui parar dentro dessa história desde um lugar em que eu consegui captar a história de uma pessoa com deficiência que está lembrando, venerando, consolidando a memória de um parente que também é uma pessoa com deficiência física que foi adquirida na Guerra do Paraguai, da qual ele é veterano e viveu no asilo dos Voluntários da Pátria.
Acho importante, inclusive, falar que o meu filme se concentra mesmo nessas lembranças, deixando à parte qualquer questão geográfica ou geopolítica sobre a Ilha do Fundão.
É uma história na perspectiva dela, enquanto um ser humano integral, mas que muitas vezes é carimbado por ser mulher, negra e pessoa com deficiência, mas ela vai contando sua trajetória e infância nesse lugar que ja não existe mais na forma como ela conhecia, mas onde tinha esse herói de infância, que é o Vovô Moju, uma figura muito querida por todo mundo e que contava histórias para ela. Então, a Valéria acaba contando a história dela, através das histórias dele, como se estivesse passando o bastão mesmo.
Still do filme “Valéria Divina e as Histórias de Vovô Moju”
E a Valéria já assistiu ao filme?
Sim, ela participou opinando, mas me deixou muito livre, porque achava que nem iria acontecer nada disso. Como você falou antes, eu sou mesmo workaholic, porque de fato eu não teria tempo de ficar fazendo filme (risos). Não tenho alguém pagando as minhas contas para eu fazer um filme experimental, essa não é a minha realidade. Eu faço isso por uma necessidade de expressar algo, uma urgência de me expressar.
Então fui fazendo nos tempos livres, filmei e editei tudo no celular, menos o áudio que eu pedi para a Monalícia fazer para mim.
Que interessante!! E falando em áudio, como está a trilha sonora do filme? Tem músicas suas?
Sim, tem músicas minhas do disco que se chama “Algo Rítmico”, que eu gravei com o Casé Pinheiro durante o período da pandemia e tem participação da Marisol Mwaba, uma cantora aqui de Santa Catarina que é referência para nós.
Como está sua expectativa para estrear no FALA São Chico? Você estará presente no festival?
Vou sim! Estou esperando trocar ainda mais com o pessoal da área, conhecer as pessoas, fazer as formações. Para mim, as duas experiências do FAM foram muito boas, especialmente a última que foi presencial e, na minha visão, eles foram coerentes com a missão de trabalhar com difusão e informação, então a parte de suporte aos realizadores foi boa de uma forma que deu vontade de seguir produzindo.
Então estou muito feliz em poder ir para outra cidade com esse filme, acho que vai ser uma ótima oportunidade.
Como é ser um artista atuando em mais de uma vertente? Como você expressa tudo o que você precisa expressar?
O jogo entre estressar e expressar é constante durante das pressões do dia a dia e das demandas de você poder existir minimamente, colocar comida no prato para o seu filho, passear e ver pessoas queridas, cumprir com as suas obrigações… tudo isso demanda grana e uma engenharia muito maluca desde o lugar em que eu estou experienciando existir. Então esse malabarismo do viver, acaba encontrando um palco quase que de experimentação que são as artes.
Por um tempo eu achava que poderia ser músico, então fiz disso uma profissão que me trouxe muitas coisas boas, inclusive a possibilidade de conhecer outros artistas, outras artes. Foi aí que comecei a me aproximar das artes visuais, fazer minhas primeiras exposições coletivas, depois individuais e descobri o caminho de como mostrar o lugar que eu proponho quando faço minhas pinturas e meus altares.
Esses altares são difíceis de captar com foto, então comecei a fazer experimentos com vídeos. Junto com a experiência do Festival de 2021, fui me encorajando mais a me instruir e experimentar com o audiovisual e também a não me “pré-setar” [sic] para nenhuma linguagem.
A demanda da expressão é maior que o compromisso com uma certa linguagem, então mesmo a possibilidade de ser múltiplo é consequência de uma urgência, não é uma necessidade de ser múltiplo.
Então você está aberto para ser artista?
Estou aberto para ser atravessado pelas expressões possíveis, porque tem pessoas que são atentas para linguagens específicas, outras pessoas que não enxergam a linguagem artística, mas eu acabo sentindo e emitindo esses sinais da forma como eles chegam para mim, independente de como é essa forma.
Maravilhoso! Em relação aos seus trabalhos, tem algum que você possa contar que está saindo do forno?
Sim! Eu e Marisol Mwaba estamos finalizando mais um curta, o “Onde Cabe um Abraço”, e mais um clipe também. Além de dirigir um clipe de uma outra artista, isso em meio a outras atividades, como a ilustração de capa de livro e os meus shows que são o meu principal sustento como artista mesmo.
Aliás, estou preparando um LP que espero que seja finalizado até o final do ano, que integra as artes visuais com a música e outras linguagens. Para preparar esse material, vou fazer uma turnê pelo Brasil que será de julho a novembro. Algumas cidades aqui de Santa Catarina, além de São Paulo, João Pessoa e Salvador.
Quero terminar dizendo que estou muito feliz com a oportunidade de ter recebido e percebido a história da Valéria, ter tomado a decisão de contá-la e ter tido energia para fazer todo esse processo até o final, porque ele foi longo e bastante artesanal. Fiz pelo celular e fui aprendendo a usar a ferramenta e como contar uma história através de imagens. Me sinto feliz e ansioso para participar do Festival e trocar com outros artistas e profissionais. Espero que esse filme me leve a outras gentes e outras histórias!
Cartaz do filme “Valéria Divina e as Histórias de Vovô Moju” – François Muleka
Imagem em destaque: Pixabay
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