A Demagogia do Bem.
24 de Junho de 2013

A Demagogia do Bem.

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Winston Churchill, lorde inglês, primeiro-ministro britânico durante a Segunda Guerra, entre charutos e cavalares doses de brandy, disse que se aos dezoito anos você não for comunista, não tem coração e se aos quarenta não for conservador, não tem é juízo.
E o Cazuza, no fim dos anos 80, pediu “uma ideologia para viver”, afinal, depois dos seus (nossos) heróis morrerem de overdose e dos inimigos estarem no poder, seu partido era um “coração partido”.

Como quase todo mundo, estou acompanhando e vivenciando o momento de mobilizações e passeatas pelo Brasil. E, por princípio, como democrata, apoiando o direito ao protesto dos cidadãos do país.

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Acontece que o capetinha profissional, que vem pelo lado esquerdo, igual aqueles diabinhos e anjinhos que nos desenhos ajudam o personagem a tomar decisões, puxando a brasa para a sardinha deles, já apareceu provocando, dizendo “o que? Tanta coisa acontecendo e você não vai analisar nada direito?”
Aí danou-se. Lá vou eu.

A origem das manifestações está, majoritariamente, entre os jovens de classe média, universitários, plugados nas redes sociais e (pelo menos até então) não envolvidos na militância ou movimentos de base. A capacidade latente de interconectividade dessa turma é imensa.
Por isso, quando iniciaram a movimentação, funcionou com uma “pedra no lago”, abrangendo a classe média. E o feicibuqui é o melhor espaço da história para se testar a Teoria dos Seis Graus de Separação, pode ir lá experimentar (pode ser com o Obama, Mick Jaegger, Papa Francisco, o escambau).

Logo, todo mundo se sente NA OBRIGAÇÃO de protestar. Senão, também tá levando algum, ou é “alienado” (nossa, acho que a última vez que se usou essa palavra foi nos anos 70…).

Nesse cenário, as eventuais “lideranças” que se apresentem agora para conversar com o poder constituído, ou não são construídas pela representatividade (partidos, grupos sociais, ONGs, etc) e por isso não têm força, ou são já engajados em algum organismo, sendo reconhecidos como aproveitadores e por isso, não têm legitimidade. Complicou, né?

Assim, as manifestações, mesmo que legítimas em sua essência estão condicionadas por nossa democracia jovem, instituições frágeis e partidos (que deveriam ser o fórum dos debates para um país mais justo) amorfos.

Então, igual a outros eventos, como o Occupy Wall Street, as reivindicações acabam derivando para objetivos intangíveis, do tipo “abaixo a corrupção”, “por serviços públicos de qualidade”.

E o que isso quer dizer na prática? Que ao desviar de um tema específico pelo qual lutar (tirar R$0,20 da passagem de ônibus seria um), conquistar o objetivo e ir pra casa, o belo sentimento de indignação dessa juventude, e que se espalhou para quase toda a sociedade, perde o foco.
Ninguém gosta de político demagogo. Mas, ao sentimentalizar a indignação de boa parte da sociedade, canalizada em uma tomada das ruas, com clima de festa cívica, resgate de cidadania, etc, etc, e que na verdade está relacionada diretamente com uma explícita impaciência com corrupção endêmica, descaso pontual e uma grande dose de incompetência daqueles que gerenciam os impostos que todo mundo paga, estamos também sendo demagogos.

Concurso de cartazinho mais criativo, frases de efeito de 2º escalão (…“o gigante acordou”… arghhh…), papais levando criancinhas pra manifestação, isso também é demagogia. Do bem, pode ser, mas é.
Até porque (agora vou arrumar confusão…) não acredito em “protesto pacífico”.

Protesto pressupõe confronto. Pode até não ter e ir todo mundo bonitinho prá casa. Mas quem vai protestar, tem que saber que a borrachada é uma possibilidade. Senão não vale, cadê a pressão? É só ir na frente da Casa Branca, todo dia tem um monte de gente lá com cartaz protestando sobre tudo, e a polícia nem dá mais bola.

Então, se todos nós deixarmos a demagogia do bem de lado, e abrirmos espaço para que esses jovens transformem essa indignação em real participação, assumam projetos políticos diferentes do que temos hoje, e com eles a responsabilidade – sim, responsabilidade de mudar as realidades que questionam, podemos ter esperança.

Volto ao Cazuza e ao Churchill: jovens, usem o coração e inventem a nova ideologia!

E como disseram Lennon e McCartney, em Revolution, nós vamos adorar ver qual é o plano de vocês.

Vejam:

Revolution – Beatles

Cazuza

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