Todas as manhãs, meu dia começa quando eu abro os olhos. Me localizo no quarto com aura de sono. Me rendo à “ditadura” de um relógio que nunca descansa. Presumo a luz da aurora, lembrando que já é hora.
Todas as manhãs eu abro os olhos e quase sempre volto a fechá-los. Para rezar, por preguiça, para adiar as demandas que parecem me sugar.
Então lembro da filha, do colégio, do quão nobre é madrugar para instigá-la a estudar. E quando vejo estou de pé, a postos, sem sequer ter visto a vantagem que a vida me deu: saber se já é dia ou se segue sendo breu.
Ao contrário de mim, capaz de cultuar a beleza de uma flor, a borboleta que me ronda, a noite com lua redonda, mais de meio milhão de pessoas não enxergam no Brasil. Sequer distinguem o claro da escuridão. Outras 6 milhões, segundo dados do IBGE (Censo de 2010) convivem com baixa visão, limitando-se à leve impressão do que existe à sua frente.
E ainda que as realidades sejam diferentes, entre o cego criança e o cego maduro, o cego de nascença e o que perdeu a visão, o cego que estudou e o que nunca teve a chance, o casado e o solteiro, o rico e o pobre, o que tem fé e o que tem medo, na rica diversidade inerente aos cidadãos, todos, à seu modo, enfrentam a mesma condição: a deficiência da sociedade em contribuir com a eficiência de um deficiente visual.
Ao abrir meus olhos para este universo, sem cartela de cores mas com brilho em profusão, lapidado dia-a-dia em comprovada superação, acatei o convite para escrever sobre isso. Lançado há 17 anos, o livro “Seus olhos, depoimentos de quem não vê como você nunca viu” é resultado de um trabalho voluntário, com a venda de 5 mil exemplares revertida para a ACIC, a Associação Catarinense para a Integração do Cego que completa 42 anos nesta terça-feira, dia 18.
Desde então, a experiência de abrir os olhos para outra realidade me levou a compartilhar o que aprendi neste convívio com meus personagens, com 11 vidas vinculadas à rotina na ACIC: como os cegos veem o mundo, pela pele das mãos, o vento que sopra o rosto, a sinfonia que os sapos cantam. Como sentem o que o coração nem vê, com direito a amor sentido “à primeira vista”. Como enfrentam o que nós nem ousamos estimar.
– Pressentir antes do susto a presença do orelhão (que a cabeça sempre alcança antes do alerta da bengala).
– Acertar a dose de um remédio prescrito em conta-gotas.
– Ler o itinerário do ônibus, para acertar o caminho.
– E ao pôr o bebê no berço, descobrir se apagou a luz.
À medida que a edição dos livros foi ficando esgotada, nunca mais fechei os olhos para este privilégio: de poder escrutinar todo o mundo à minha volta. Então comecei a frequentar escolas para contar estas histórias.
– De cegos que mesmo às escuras protegem o filho que vê.
– Frequentam universidades, apesar da lacuna de materiais adaptados.
– Improvisam nos esportes e se aventuram às cegas, na tirolesa radical.
– Ultrapassam barreiras e quebram paradigmas, como o Artur, que mesmo cego, se pôs a fotografar as nuances do mar.
Quase sempre acompanhada por um deficiente visual, estive no Senac, no Colégio Guroo, em uma escola pública infantil, e por três vezes na Escola Internacional Unisociesc, incluindo o Ato Cívico com todos os alunos do Ensino Fundamental. Dando a oportunidade de se guiarem com bengalas. De se perderem com os olhos vendados. De escreverem seu nome no tabuleiro de Braile… Para o Artur, levaram pelúcias e brinquedos, querendo ver se decifrava. Com o João ao violão, o canto virou comoção.
Por isso de hoje a sexta-feira, aqui na Coluna, vou mostrar iniciativas de inserção social. A foto tridimensional para Andrea Bocelli poder “se ver”. A bike dupla, em que os cegos pedalam sem precisar se guiar. O esporte de onde emerge talentos, como o de Orides Joel de Lima e Alírio Seidler, campeão e vice-campeão de paraciclismo. A “formação” de cães guias na Escola Helen Keller. O projeto Releituras, com literatura narrada em formato de rádio-novela. E a entrevista com o diretor da ACIC, Artur Mantelli Filho, que conhece a dupla realidade, de quem enxergava o bebê no berço, mas antes da filha completar um mês, perdeu a visão num piscar de olhos.
Com sede em Balneário Camboriú, a Escola de Cães-guia Helen Keller é referência no Brasil, respondendo sozinha por 42 dos 200 cachorros treinados para este fim. Ainda assim, o Secretário Executivo, Daniel Bernardini Picolotto, destaca o quanto a oferta não supre a demanda no país. Cego de nascença, aos 37 anos Daniel usufrui do segundo “melhor amigo”. O primeiro se aposentou por idade, em 2013, e há dois anos ele convive com a Arya, a linda e esperta labradora que integra a primeira ninhada do plantel genético da Escola.
“A Arya entende que eu não enxergo, que cabe a ela desviar dos obstáculos, não apenas no solo mas também os aéreos, onde eu possa vir a bater”, explica Daniel, consciente de que a labradora só é fiel trabalhadora pela relação de carinho que vigora entre os dois. O “colete” de metal, mais do que responsável pela conexão entre o cão e o dono, também delimita a hora do expediente e os momentos de folga. “Quando eu retiro o equipamento, ela deixa de estar alerta e passa a ser um cachorro comum, brincando como qualquer outro”, comenta Daniel, que apesar das vantagens da esposa que enxerga, reserva para si todos os cuidados com seu guia de estimação.
Para saber mais sobre a H Keller Guide Dogs Service, os contatos são www.caoguia.org.br e @caoguia.org no Instagram.
Clique nas fotos para acionar o slideshow e ampliar as imagens com a repercussão do livro Seus Olhos, lançado com iniciativa e concepção de Paulinho Ferrarini

