O Acontecendo Aqui realizou há poucos dias a reunião anual de seus colunistas, com objetivo de dar a conhecer as novidades do portal e receber contribuições com sugestões e críticas. Tudo deu certo e funcionou como esperado, mas com um bônus inestimável: saímos todos com uma sensação maravilhosa de fraternidade, mesmo que alguns de nós nos víssemos ali pela primeira vez. É que estávamos todos com mentes e corações desarmados, querendo efetivamente confraternizar e colaborar uns com os outros e com o Portal. Vivemos horas de descontração, cordialidade, bom humor, otimismo. A isso se chama recarregar a bateria. Seria tão bom se acontecessem coisas assim com mais frequência, ao contrário do que é comum, com as pessoas se empenhando mais no embate que na colaboração.
Nas Profecias Celestinas, livro de sucesso nos anos 80, o autor descrevia a enorme sucessão de pessoas, fatos e coisas que sugam nossa energia e nos deixam abatidos, enfraquecidos para a luta do dia a dia. Todos nós temos que nos defender, sendo que alguns reagem melhor, e outros são mais suscetíveis, como é meu caso.
Lembro muito bem, com particular desagrado, de dois acontecimentos que mostram o quanto me deixo afetar. Ambos quando dirigia a Propeg São Paulo, em entrevistas de profissionais em busca de emprego. O primeiro, uma jovem da área de atendimento, que durante uma hora me contou sua vida, suas experiências na profissão e fora dela, com especial ênfase nos dramas pessoais. Ao fim fui acompanhá-la à porta e voltei para minha cadeira, com dor de cabeça, nauseado, psicologicamente acabado. O outro foi um conhecido diretor de criação, que havia sofrido tremenda tortura psicológica na agência que acabara de deixar, experiência que me relatou com detalhes, inclusive com direito a choro convulsivo. Naquela noite não consegui dormir.
E como nossas energias são chupadas? Basta ver o que acontece a nosso redor: inflação voltando; corrupção anunciada e constatada em obras públicas, em especial nas 12 arenas para a Copa do Mundo, das quais pelo menos 5 vão ser sucateadas; postura populista da nossa presidente, muito mais preocupada com a reeleição do que com os problemas da nação; nossa triste posição de lanterninha entre as nações no quesito educação; políticos desqualificados e condenados dirigindo as instituições; terrorismo em Boston; a médica que matava pacientes na UTI; jovens que matam e se declaram “de menor” para escapar impunes; publicidade oficial enganosa, que mostra um panorama em ouro sobre azul quando a realidade é cinza; pessoas que falam alto e muito, sem se preocupar com seus vizinhos de ônibus ou de calçada; celular que não funciona; e tantas outras incontáveis situações do dia a dia. É ou não motivação de sobra para a perda de energia?
H era dono de uma pequena agência em São Paulo, participante do CEDAMPA, Centro de Estudos, Desenvolvimento e Apoio à Pequena e Média Agência de Propaganda, movimento nascido do 3o. Congresso Brasileiro de Propaganda. Numa reunião da entidade, num dia de especial estresse, ele confessou:
– Pimentel, eu tenho alma de papel higiênico, absorvo tudo que é merda.
Poucas vezes vi um depoimento tão pungente de pessimismo e de autodeterminação para se encaminhar ao fundo do poço.
Procuro o “Profecias…” na estante, para ver se me atualizo com as estratégias de defesa, mas não encontro, e aí me dou conta que não está lá porque emprestei dois exemplares e não me devolveram, o que, convenhamos, absorve um pouco mais da reserva pessoal de energia.
Então irei a uma livraria em busca do livro, pois estou mesmo precisando de ações de contra-ataque, como a nossa reunião de colunistas, antes que caia na constatação do meu amigo ausente H, o que tinha alma de papel higiênico.
