A experiência de deixar Florianópolis, em plena sexta-feira, enfrentar a estrada com trânsito de temporada, e ir até Penha correr no Beto Carrero World, me fez criar uma paráfrase entre a corrida e a vida. Tudo o que eu teria perdido se não tivesse me rendido a repetir: passo a passo, um passo e mais um passo, depois outro passo.
Perderia a viagem com minha amiga atleta, o kartódromo iluminado tomado por pernas em vez de rodas, a música empolgante que exalava invisível, as sonoras lembranças das fases da filha – desde o fraldário e o carrossel até os brinquedos radicais. Teria perdido a torcida do Shrek e da Fiona, do Leão de Madagascar, do Rei, da Rainha, da criatura aterrorizante me seguindo com serra elétrica. Perderia a montanha russa, ali ao meu redor, e também a disputa lá no meu interior: o fôlego dizendo “para” e a garra dizendo “vai”. Por tudo isso, minha 35ª medalha foi única e especial. Por me lembrar a manter o passo mesmo se julgo que não posso.
Não importa o quanto já foi percorrido. O passo seguinte sempre será o primeiro do resto do caminho. E detém o poder de mudar meu destino.
Não importa o quão distante pareça a chegada. O quanto eu esteja cansada, suada, desolada. Quanto maior a sintonia com a minha companhia, ah… menor vai parecer o desafio de cada dia.
Não importa quantos me ultrapassem, quantos eu passe, quantos impasses entre a força das pernas e o fôlego do coração. Meu resultado não é pré-determinado, mas fruto de cada passo dado. Com tropeços, talvez. Mas com trapaças, jamais.
Porque não importa em quantos atalhos eu vou esbarrar. Se tentar “lograr”, já sei que o caminho perdido incide num mérito resumido.
Não importa a nobreza do alvo. Se eu não tenho um plano, estratégia, disciplina, meu alvo vai ficar calvo de tanto esperar. Não basta desejar. É preciso enfrentar.
Não importa quantas medalhas já ganhei nem as vitórias que acumulei. Nenhum triunfo passado assegura conquistas futuras. E só vou vencer de novo se de novo eu correr. Se de novo eu tentar, treinar, melhorar.
Não importa o percalço. Eu só conquisto meu visto, sem data pra expirar, se eu souber repetir a regra de repetir. Ok, repito.
Pra desarmar o desanimar, preciso ver resultado, fazer de novo e de novo, até dominar o viés de “fardo”.
Repetir precede o superar como seguir precede o conseguir. E quanto mais claro for o motivo que me move, mais eu vou resistir. E mesmo exaurida, persistir. E dar o próximo passo, mesmo se julgo que não posso.
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