Sabemos que está presente e mesmo evitamos falar dele, mas inevitavelmente ele percorre pelas mesmas vias e nos espreita, a espera de um descuido. É dele que se alimentam os deprimidos e os estressados, é também ele que se interpõe nas trivialidades, preenchendo futilmente nossas horas vãs.
O que preocupa é que o vazio vem ocupando mais e mais as nossas vidas, como se nada mais de relevante houvesse a ser dito ou feito. A moda, a forma, a cor, a última notícia do momento, por mais insossa ou apenas ruidosa que seja, surgem como possível assunto para uma conversa ou mesmo como fato relevante para uma decisão.
Mulheres gastam tempo discutindo “seriamente” sobre as cores do esmalte ou o corte de cabelo da vez, enquanto homens se preocupam em mostrar-se mais imponentes, com mais músculos ou tatuagens e sempre “joviais”, “descolados”.
Multiplicam-se os programas de TV com reality shows que tratam da prática irrefreada da compulsão pelo vazio. Os jornais já não têm nada a dizer ou não querem mais dizer nada, e contentam-se em replicar factoides fabricados para alimentar uma curiosidade doentia sobre o vazio dos outros. As redes sociais pressionam para que a típica foto “selfie” esteja sempre bem cotada, para que a imagem produzida não perca seu potencial frente à concorrência (???)
Chegamos ao extremo de que, mesmo quando as pessoas têm conteúdo e opinião própria, elas se envergonham disso e querem aparentar mais vazio do que de fato têm! Não é incomum que deixemos de falar ou escrever corretamente para não nos sentirmos “diferentes”, talvez parecendo pedantes para alguns, ou que passemos a curtir aquela música brega só para não ficar de fora das rodas de amigos. Pior ainda, quando baixa-se a guarda para o politicamente incorreto e adentra-se o terreno pantanoso da ação preconceituosa ou sexista, tão comum em dias de carnaval, por exemplo.
Vivemos um tempo em que as pessoas sofrem de uma grave carência de afeto e de objetivos, e o apreço às tolices impensáveis se reproduz, triste e inconsequentemente.
O reverso do cheio, é o vazio. Então, o que seria o cheio? Como fazer para o vazio não assombrar nossas vidas, agora que habitamos as cidades tão abundantes de sedutoras comodidades, onde se multiplicam aos milhares as ofertas de pequenas alegrias empacotadas em formatos personalizados, ou prazeres virtuais à pronta entrega?
É preciso, talvez, resgatar no profundo das próprias limitações aquilo que nos move. Emoção, superação, objetivos ou ideais, fazem parte da aventura de viver. Salvo que a apatia nos corrompa, é o amor por realizar que nos convida a estar acordados a cada novo dia. É a intensidade dos nossos desejos por ser no mundo que possibilita à humanidade sonhar com um futuro. Precisamos de sonhadores, portanto.
O vazio, é quando deixamos de ser. É quando deixamos de sonhar.
