ARTIGO | “El Amor Es Más Fuerte” – A visão otimista de um mesário no exterior
29 de Outubro de 2018

ARTIGO | “El Amor Es Más Fuerte” – A visão otimista de um mesário no exterior

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por Sérgio Massucci Calderaro*
 

A convite de ex-companheiros do serviço consular do Brasil na Espanha, atuei como mesário das eleições em Madri. O trabalho voluntário nos dois turnos foi cansativo, com jornadas de quase doze horas, mas o prazer de colaborar nesse momento vence qualquer cansaço.

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Não escondo meu descontentamento com o resultado. Meu candidato era o outro, o que, em sua campanha, se manteve equivocadamente conversando com os adeptos tradicionais de seu partido e não conseguiu – parece que nem sequer tentou – estabelecer comunicação com os eleitores contrários a ele. 

Estão dizendo por aí – e falo principalmente da imprensa internacional – que o mal venceu. Venceram a intolerância, a intransigência e a ignorância. E que Bolsonaro é mais uma gota da onda conservadora que volta a inundar o mundo. Eu concordo.

Mas neste domingo vi um outro Brasil. Um Brasil que, apesar de votar majoritariamente na ultra-direita, sorri cordialmente, brinca e olha com bondade. Um Brasil que beija e abraça. Um Brasil que não hesita em ajudar a mãe que tem que descer a escada com o carrinho onde dorme seu bebê. Um Brasil que cede voluntariamente seu lugar na fila ao eleitor deficiente. Um Brasil que pega a senhora de bengala nos braços e a leva até a sua seção eleitoral. 

A maioria desse Brasil votou em Bolsonaro. Mas a maioria desse Brasil não defende necessariamente as ideias de Bolsonaro. Quero acreditar que foram forças circunstanciais que a levaram a escolher um candidato de perfil tão abominável. 

Quero acreditar que o votante circunstancialmente ultra-direitista, que atua amavelmente em suas relações sociais, nunca será capaz de atacar um semelhante por ter, por exemplo, outra raça ou uma opção sexual diferente da sua. 

O Brasil amável que eu vi votando não combina com o Brasil truculento que, auguram, vem por aí. Não vejo essa conexão. E não venham me dizer que no exterior os brasileiros são diferentes, elitizados e europeizados, pois não são. A maioria, de fato, vem das classes baixas. São brasileiros e sempre serão, enviam dinheiro a suas famílias no Brasil e continuam envolvidos com o dia a dia de seu país de origem.

Bolsonaro vai presidir o Brasil, mas Bolsonaro não é o Brasil. Bolsonaro é muito menos do que os 55% que o elegeram. Desse montante, a esmagadora maioria não é Bolsonaro, mas simplesmente votantes anti-PT. A maioria do Brasil é, e continuará sendo, luta, amor e solidariedade.

E sobre amor e luta os latino-americanos podem dar lições ao mundo. O argentino Tanguito, morto pela ditadura de seu país, em um hino desesperado, já afirmava que “El amor es más fuerte”. 

Neste momento, eu não sei exatamente se acredito nisso. Mas eu tenho que acreditar nisso. Eu preciso acreditar nisso. Eu preciso substituir minhas lágrimas por um sorriso. O amor é mais forte. O amor é mais forte. O amor TEM que ser mais forte.

*Sérgio Massucci Calderaro (São Paulo, 1971), redator e professor. Vive na Espanha.

El amor es más fuerte

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