“Você se lembra da minha voz? Ela continua a mesma, mas os meus cabelos…”. Esse foi um bordão de um comercial de xampu dos anos 1970 e que muito bem reproduz as práticas das propagandas partidárias a que os partidos políticos têm direito todas as semanas em nossa grade de televisão aberta. Mudam os personagens, em geral candidatos eleitos ou pretensos candidatos nas eleições seguintes, mas o discurso de todos eles continua o mesmo: enfadonho, repetitivo e impossível de distingui-los entre as mais de 30 siglas existentes.
Sem exceções, os discursos se assemelham aos remédios genéricos vendidos em farmácias, cujas receitas e ingredientes são os mesmos para combater os males que afligem o Brasil desde 1500: “nosso partido acredita na democracia; trabalhamos por uma reforma tributária e fiscal; fazemos política honesta e transparente; com mais segurança, mais saúde, educação de qualidade e transporte público melhor para você; blá, blá, blá”. São promessas e prestações de conta que não encontram eco na realidade das pessoas aqui nas ruas.
Atribuo a origem desse descompasso a uma série de fatores, tais como falta de legitimidade dos partidos em representar parcela significativa da população – menos de 10% da população brasileira é filiada a uma agremiação partidária; ausência de um caráter programático e de propostas viáveis e concretas que empolguem a sociedade e um sistema de representação política viciado que privilegia a atuação do partido e seus líderes em detrimento aos anseios dos eleitores e do conjunto da sociedade.
Tudo isso se evidencia na apresentação dos partidos à sociedade em suas propagandas partidárias. Creio que uma mudança no conteúdo e na forma de divulgação de seus ideais seja o primeiro passo para um processo de resgate da credibilidade dos partidos políticos junto à sociedade e que deve culminar também com uma ampla reforma política, partidária e eleitoral no Brasil. Porque da atual forma, por mais esforço cívico e consciência política que qualquer eleitor se proponha a ter, está difícil de entender o que eles dizem.
