A ânsia do conhecer acompanha o homem desde que ele se entende como tal e o persegue há milhares de anos. As inquietações diante dos fenômenos naturais, por exemplo, eram sanadas com lendas e relatos de experiências dos mais idosos e sábios. A construção do caráter e da personalidade eram moldados nesse contexto, dentro dos parâmetros de cada grupo cultural.
Passados os longos períodos das trevas medievais e das luzes da modernidade, nos encontramos num tempo “pós-moderno”, ainda mais inseguros de nossos conhecimentos e de nossa própria identidade do que os nossos antepassados. Enquanto a modernidade assegurava bases sólidas para o conhecimento científico, método e disciplina para a formação pessoal, a pós-modernidade trouxe uma perspectiva crítica do dogmatismo e do mecanicismo que, no entanto, está sempre ameaçada de ser confundida com um mero relativismo.
Uma situação que espelha essa ordem das coisas é a desfaçatez com que a educação de crianças e jovens é tratada na sociedade brasileira, com que se mercantiliza o ensino universitário e se exige pouco currículo dos representantes políticos. Desfaçatez que resulta numa ignorância catastrófica que acomete milhares de pessoas, que não só não sabem falar e escrever como desconhecem princípios básicos das ciências naturais, que gera irresponsabilidade e causa danos. Pessoas capazes de cometer quaisquer tipos de tolice, comprometendo, por vezes, outras vidas humanas.
A oportunidade de consolidar algumas bases de conhecimento, mantendo a mente aberta para desdobramentos futuros, se perde e é substituída pela velha “lei do menor esforço”, que inibe a dúvida e fomenta a ignorância: por que vamos aprender, se esse conhecimento será ultrapassado ou negado em alguns anos? Por que buscar saber ou valorizar algum esforço pessoal, se a minha identidade só transparece para a sociedade por meus hábitos de consumo?
A via da sustentabilidade, do conhecimento pertinente que se propõe a ampliar e agregar antigos e novos saberes, que compreende o homem ecologicamente, ou seja, integrado social e culturalmente, é adepta do pensamento complexo. O fundamento do conhecimento complexo é a crítica, é preservar a dúvida que gera o novo conhecimento, estimulando a capacidade de questionar e de pensar novas soluções, e valorizando o compromisso com o auto-conhecimento.
A ausência de reflexão e a carência do auto-conhecimento repercutem nos desafios práticos do dia-a-dia e nas atitudes éticas que tomamos coletivamente. É preciso compreender que não tomar o conhecimento dado como absoluto não significa que se deva preferir o desconhecimento. Significa, todavia, que precisamos rever nosso ponto de vista, sim, e integrar o homem conhecedor no processo de conhecimento, mas não abandonar simplesmente tudo o que a modernidade formulou.
Trafegar na complexidade do conhecimento na pós-modernidade não significa escolher as trevas. Significa transcender às luzes.
