Naquela noite, há 16 anos, eu tinha decidido encontrar o amor.
Um amor instantâneo e irreversível. Infinito e eterno.
À primeira vista. A se perder de vista…
Certa de que ele existia, e mesmo se insistia em “atrasar”, um dia estaria lá.
Fazia bem pouco que eu havia levado minha irmã a um bar na Lagoa, e o clima, em 2002, era exatamente este, de prévia de Copa do Mundo.
Ali, diante da minha torcida mais genuína, minha irmã conheceu o Fernando. E antes mesmo do Brasil vencer a Copa, o amor já vencia de goleada.
Quatro anos mais moça do que eu, a Daniela não precisou de quatro meses pra ganhar uma aliança.
Assistindo de camarote a todos os dribles do amor, que crescia imune à distância que separava as cidades onde eles viviam, não pude evitar o insight: e o meu par, continuaria à parte?
Completamente distraída pela “vida que eu sempre quis”, morando na Beira-Mar Norte, com um Mercedes na garagem, diariamente maquiada na telinha da TV, percebi de repente que não basta chutar pra marcar o pênalti.
É preciso técnica, sorte, e acima de tudo, a oportunidade pra fazer o gol. Pra ter um amor, antes eu tinha que dar chance ao amor. O que, no meu caso, era sinônimo de baixar a bola! Ter mais tempo livre e menos medo de dividir minha vida.
Mudar a mente, ciente que a vida a dois não segmenta os sonhos… Ela sedimenta o melhor de nós.
Porque o placar do amor tem regras próprias: quanto mais a gente distribui, mais ele multiplica.
Então adivinha…
Sem temer encontrar, amar, casar e perpetuar o novo ar em forma de família, voltei ao John Bull, justamente o bar onde a minha irmã virou o jogo.
Assim que vi o Marcio já não havia volta. Era estudante na graduação, nascido 10 anos depois de mim, e daí, não importa!
Às margens da Lagoa, o MARcio com MAR no nome, com o MAR tingindo a íris, virou meu MARido num piscar de olhos.
Lá se vão 16 anos. No mar que mora no olhar, já vi marolas e maremotos, brilho de diamante quando nossa filha nasceu e o breu dilacerante nas jornadas na UTI… Mas nunca vou esquecer de quando nos olhamos pela primeira vez. De quando enfim entendi cada passo e tropeço que me levaram até ali.
Depois de um ano morando na Alemanha, decidido a voltar logo pra Europa, ele me viu, veio e venceu no escanteio.
Destronando antigas certezas. Derrubando as próprias defesas. Decidimos formar um time. Porque o amor não é fácil. É fábula!
E só funciona quando vestimos o mesmo uniforme, respeitamos as mesmas regras, e mesmo ocupando posições distintas, avançamos juntos em uma direção: superando cada entrave, mirando sempre a mesma trave, assegurando ao outro o melhor passe, em generoso conclave.
Ao te ver, já não podia arremeter, apenas ser…
Ao se revelar, amortecendo a retina
e se desdobrar à luz da minha rotina,
nosso amor luzia em dupla aura,
de improvável… como sempre
ou de possível… como sonho.
A ilusão pedindo coragem,
a proteção clamando distância
e a clemência, santa ingênua,
engenhando a permanência.
Meu coração desregrado,
tatuado por turbulências
ansioso pelo repouso
tateava um campo de pouso.
Porém descrente, receoso…
evitou aterrissar.
Tentou protelar, adiar,
fugir da fábula escrita a giz.
Mas fadado ao final feliz
já não podia arremeter, apenas ser,
sem seguros, promessas ou fiança
o lado de dentro da tua aliança.
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