Foto: UCS Center on Public Diplomacy
A coluna que publico nesta quinta-feira de Corpus Christi não vai falar de nenhum projeto, empresa ou tecnologia inovadora. É uma reflexão particular que compartilho com os leitores do Acontecendo Aqui numa semana que não foi fácil pra ninguém aqui no Brasil.
Nos últimos oito meses, tenho ocupado esse espaço apresentando informações e pontos de vista sobre pessoas, iniciativas e empresas que apostam em inovação, novas tecnologias e processos. A tal da nova economia, um conceito bacana que associa o capitalismo a preceitos como a necessidade de uma visão mais plural e inclusiva da sociedade, mais tolerante nos comportamentos e centrada no “empoderamento” individual.
De certa forma, uma utopia.
De alguns anos pra cá, o Brasil tem, por um lado, caminhado rápido na adoção de novas tecnologias: seja na popularização do “Zap”, como poucos países mundo afora conseguiram; seja no uso de máquinas de débito e crédito e outras ferramentas digitais (gerenciamento financeiro, emissão de boletos etc.) por microempreendedores.
“O século XXI é divertidíssimo”, disse na terça-feira, 29, o general Sergio Etchegoyen, ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência e responsável pelo Sistema de Inteligência do país. De fato, o século XXI tem algumas coisas divertidíssimas, como internet rápida, softwares em nuvem, realidade aumentada e algumas séries da Netflix.
Mas a frase saiu no pior momento possível: em uma entrevista coletiva na qual ele devia explicar à população porque o Brasil entrava na segunda semana de caos e desabastecimento em função da greve de caminhoneiros que o governo que ele representa não conseguiu “prever”. Certamente porque não entendeu o potencial mobilizador que aplicativos e redes sociais tem quando as pessoas querem se rebelar, seja por vinte ou quarenta e seis centavos.
Por essas e muitas outras, destes mesmos poucos anos pra cá, nossa realidade político-social se tornou praticamente uma distopia.
Você acorda e vai se informar, mas se perde com o volume de notícias sobre corruptos extremamente inovadores que descobrem brechas em tudo que é canto para roubar dinheiro público, tenta driblar o noticiário de facções criminosas, chacinas e milicianos, mas cai na paralisação de não sei qual categoria, na chamada sobre os milhões de desempregados e o resultado ridículo do PIB, o ministro aquele do STF soltando presos e por aí afora…
No celular, a coisa é pior ainda: as tretas e “problematizações” insuportáveis no Facebook, os áudios fakes com “repasse pro maior número possível de pessoas” no WhatsApp e as mesmas notícias do parágrafo anterior no feed das redes sociais, só que comentadas por “analistas” especializados em todos os assuntos do mundo e região.
Nós, brasileiros, ficamos de saco cheio por um monte de coisas: corrupção, eleição, gols da Alemanha, desemprego, Dilma, Cabral, impeachment, Temer, Joesley & Aécio, corrupção de novo, greve, Lula preso vs. Lula livre, preço da gasolina, falta de gasolina… o rosário é grande. É até desumano não desabafar esse mau humor em nossas redes, o que deixa o cotidiano exponencialmente mais chato.
Assim, ficamos com a faca entre os dentes e o celular na mão. Estamos todos perigosos, embora ainda livres.
