Misturando tudo
30 de Janeiro de 2014

Misturando tudo

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1. Ele era completamente narcisista, estilista e tomava muito sol.

Uma manhã parou nu em frente ao espelho para admirar seu corpo e notou que estava todo bronzeado, à exceção de seu pênis. Então decidiu fazer algo a respeito.

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Foi à praia, se despiu completamente e se cobriu todo de areia, menos aquilo.

Duas velhinhas vinham caminhando pela praia.
Uma delas usava um bastão para ajudar a caminhar.

Ao ver aquela coisa saindo da areia, a que tinha o bastão começou a dar voltas ao redor, observando.

Quando se deu conta do que era, disse:

– Não há justiça no mundo.

A outra anciã, que também observava com curiosidade lhe perguntou a que se referia.

A do bastão respondeu: Olha isso!

– Aos 20 anos, me dava curiosidade;

– Aos 30, me dava prazer;

– Aos 40, me enlouquecia;

– Aos 50, tinha que pedir;

– Aos 60, rezava por ele;

– Aos 70, me esqueci que existia.

– Agora que tenho 80, brota na terra e eu não consigo me agachar!

 

2.  Ercílio Tranjan: O que, para mim, é muito assustador é que está havendo um tipo de comunicação que considero extremamente infantil. Ou seja, estão imbecilizando o consumidor de uma forma que eu nunca vi.

E é interessante que isso se deu nesta direção contrária: quando se começou a fazer propaganda apenas visando festival internacional, o que se começou a ver na propaganda no ar foi a idiotice mais absoluta. Uma infantilização total da comunicação.

Como se, de repente, todo o público estivesse fazendo 12 anos, 14 anos. O tipo de humor, é tudo um humor, sem nenhuma conotação negativa nisso, mas é um humor dos Trapalhões, de tapa na cara um do outro, de situações mais de escorregar em casca de banana.

Não tem nenhuma graça sutil. Não se deixa nada para a compreensão do espectador, para que o espectador possa preencher os brancos e contribuir. Isso, por um lado.

Por outro lado, eu também não vejo mais uma coisa que a propaganda brasileira tinha muito, e nisso era muito semelhante ou tentava, com caminhos brasileiros, falando uma língua brasileira, mas ela tinha como conteúdo algo da propaganda inglesa, que era saber rir de si mesmo.

Ou seja, o produto nunca era colocado como a grande solução, “o melhor do mundo”. Tinha uma visão de falar eu estou aí.

Acho que a campanha de Bombril, a primeira, do Washington [Washington Olivetto; a primeira campanha do Garoto Bombril, criada por Olivetto, em parceria com o diretor de arte Francesc Petit, o P da DPZ, em 1978], acho que as duas, três primeiras campanhas também, tinham muito disso, quer dizer, aquele jeito de pedir licença para entrar na casa. Isso, a propaganda inglesa trouxe.

O inglês não aceita muito o vendedor, o vendedor é meio invasivo. Então, eu precisava dar a você alguma coisa, precisava entrar na sua casa e pedir licença.

E vem daí essa história de eu não me levar tão a sério. “Olha, eu estou aqui, querendo conversar com você…” Era um tipo de comunicação que o Brasil tinha e exercia muito, que era o de brincar consigo mesmo.

Jornalirismo – Por que acabou se abandonando esse tipo de procedimento?

Ercílio Tranjan – Eu tento entender de várias maneiras. Acho que nada disso é gratuito. Outro dia falei que a propaganda não é vanguarda de nada. É a primeira coisa que a gente tem de entender.

Ela utiliza um discurso consagrado. A vanguarda é aquela que rompe. Se eu rompo, eu me comunico menos, eu vou ser entendido por menos pessoas. E não é a nossa função.

Por trás, nós temos uma intenção, de fato nós trabalhamos para o sistema, para vender alguma coisa, e não para inventar linguagens. Tendo a achar que nós estamos seguindo, de novo, uma linha, vejo esses blockbusters [as grandes produções à Hollywood] de cinema, e fico alarmado.

São filmes, em geral, muito burros. E muito primários, muito de ação. Trocou-se, no roteiro, o diálogo e a inteligência pela ação. O número de porradas que se dá, o número de perseguições que ocorre. Assim têm sido os grandes blockbusters.

Não que o grande blockbuster do passado fosse o filme do Antonioni [o cineasta italiano Michelangelo Antonioni, que dirigiu filmes como A Aventura, A Noite e O Eclipse, de cunho existencialista, de tomadas mais longas e mais lentas], mas eram filmes com um pouco mais de inteligência e criatividade de roteiro.

Em que não havia só ação. Nós tínhamos tempo para ouvir um bom diálogo, ou seja, o tempo do filme era uma coisa menos frenética, menos violenta do que é hoje. Isso ocorre na linguagem que é do cinema – e percebo isso também na publicidade, porque a publicidade, como caudatária, trilhou esse caminho.

Só não sei se os consumidores estão felizes com o que eles recebem no ar. Eu fico perplexo. Eu acho assim: nós tínhamos, nos intervalos, um pouco mais de respeito pelo consumidor e pela inteligência dele. Hoje, a gente vê muita gritaria, que é coisa burra, ou então um humor totalmente infantil. (Trechos de entrevista concedida por Ercílio Tranjan, um dos nomes mais importantes e premiados da história da propaganda brasileira,  ao Jornarilismo e publicada recentemente).

 

3. “Fréderic Bastiat (1801-50) em seus impagáveis Sofismas Econômicos, imagina uma petição ao rei para que todos os súditos sejam proibidos de usar a mão direita. A razão do pedido é explicada na forma de silogismo: quanto mais uma pessoa trabalha, mais rica fica; quanto mais dificuldades precisa superar, mais trabalha; logo, quanto mais dificuldades uma pessoa tem de superar, mais rica ela se torna.” (Extraído do artigo Por que a educação é importante?, de Hélio Schwartsman, publicado na Folha de S. Paulo do dia 08 de janeiro)

 

4. Tudo isso para dizer três coisas: 1. Concordo em gênero, número e caso com o Hercilio. 2. Os criativos, jovens como são, não precisam continuar se abaixando para qualquer cliente e produzindo essa safra de mediocridades que estamos assistindo. 3. Devem trabalhar como se não tivessem a mão direita, mas obcecados pelas ideias que, tenho fé, ainda são capazes de ter.

 

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