Com Certeza
22 de Janeiro de 2013

Com Certeza

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Sou um viciado em TV.
Desde pequenininho.
E eu era pequeno faz muito tempo, desde que a TV era transmitida em preto e branco e a gente tinha que levantar pra trocar de canal, entre o três possíveis.
Acho que pirei, quando assisti, ao vivo, a chegada dos astronautas à lua.
Daí prá frente, milhares de horas de Zorro, Perdidos no Espaço, Túnel do Tempo, Bonanza e o nacionalíssimo Vigilante Rodoviário e seu fiel parceiro Lobo.
Posso dizer, mais ou menos como a Hebe, que acompanhei a evolução da TV no Brasil.
Com um detalhe: eu não me interessava apenas em acompanhar os programas favoritos. Tinha uma curiosidade imensa de saber como eles eram feitos.
E o mais grave, para um garoto de 7 anos, eu gostava de comerciais de TV, ao ponto de ficar tardes inteiras com minha irmã, dando notas para os anúncios – brincadeira que a gente inventou – e depois comentávamos nossas impressões.
Era óbvio que, no futuro, acabaria indo trabalhar com esse negócio.
Hoje, minha TV tem, sei lá, 200 canais?
Esses dias, por curiosidade profissional, peguei o controle e comecei, 2, olha, 3, olha, 4, olha e assim fiquei um tempão, até dar a volta no line up.
E o que tem mais hoje, na TV é gente falando.
Proporcionalmente, quase nada de produção e poucas ideias.
Claro que há ilhas de excelência, canais de filmes, séries, história, ciências, viagens e esportes, existe vida inteligente.
O problema é que cercando essas ilhas por todos os lados, tem um oceano de programação, onde pessoas que não sabem perguntar, falam com outras que parecem ter pouco a responder.
E dá-lhe entrevista, debate, mesa redonda, talk-show, pregação e reality.
Um sofazinho, duas poltroninhas uma bancadinha, quem sabe um templo e pronto, taí o seu programa.
Dá arrepio ver a grande maioria dos veículos tratarem de economia, por exemplo. Se você seguir o que eles dizem, estará lascado. É Informação importante tratada por gente pouco preparada.
E tem, aquilo que utilizo como sendo o indicador da burrice na TV: o “com certeza”.
Quer ver?
Entrevistador: Estamos aqui com a madrinha/rainha/musa da escola/bateria/bloco/trio, Fulanneide! Fulanneide, você, neste carnaval vai levar o samba/axé/suíngue no pé prá avenida/desfile/micareta?
Fulanneide: Com certeza! Este ano, (de novo) com certeza, a gente vamos ser campeão!
Quando o assunto é legalzinho, a pergunta é “do bem”, vai dar prá fazer, então, “com certeza”!
O primo mal-humorado do “com certeza” é o “veja bem” (de uma vez por todas, please, quando o oposto é bem, então use mal. Se o oposto for bom, use mau – a troca aparece indiscriminadamente nos textos escritos substituindo o “com certeza”… que, segundo a Rafa Lino, já tem até sua versão neologismo “consertesa”, argh…).
Deu errado, vai dar rolo, ferrou, vai ter que se explicar, sempre, sempre começa com o “veja bem”.
O “com certeza” e o “veja bem” são epidêmicos, estão em todo lugar e me perdoem, quando aparecem, eu mudo o canal na hora.
Até porque, aham, vendo bem, eu tenho muito poucas certezas. Eu me permito, em nome da inteligência, mudar de opinião e de convicção na hora que eu achar que devo. As certezas são refúgios de quem não questiona, não aceita que exista a dúvida.
A TV é e imagino, será ainda por muito tempo, principalmente com a integração da internet e da interatividade ao seu conteúdo, o portal de interface da grande maioria das pessoas com o mundo.
Por isso ela precisa se depurar.
Parte de mim é pessimista, remói teorias a la Pondé, sobre o “grande churrasco na laje” em que o mundo está se tornando, e tem vontade de se mandar para Islândia.
A outra parte é otimista, acha que tem jeito, que vale a pena incentivar a criatividade, criticar a mediocridade, investir no talento, mudar a realidade de muitos, gerando a qualidade na quantidade.
Pela TV, eu vi a humanidade chegar na lua.
Ainda gostaria de ver, pela TV, a gente dar um jeito na Terra.
Com certeza (ops!…).

no twitter – @hectorvfranco
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