A musa do verão é uma invenção do meu marido e, quando namorada, eu sonhava em receber o título, ano após ano. Meus olhos brilhavam perto do instante do anúncio, mas disfarçava o sorriso depois. Não poderia concorrer. A musa do verão nunca foi uma mulher. Eu poderia aproveitar esta crônica para eleger um homem. O maestro Jeferson de La Rocca, da Camerata Florianópolis e seu Summer Festival, ou o Chico Buarque, que escolheu janeiro para a turnê no Rio, e tem abafado nas redes sociais. O caso é que a musa não é humana.
Nada se impõe como tal e ninguém impõe sua ideia à turma de verão. Ela nasce de um reconhecimento. Meu marido sempre a nomeia, embora faça crer que a coroação é coletiva. As candidatas surgem ao natural, e não é preciso acabar a estação quente para se eleger a musa. Ela é aclamada no meio do verão. Nem tanto ao início, para firmar relevância e não ser destituída, nem tanto ao fim, que não possa usufruir da realeza.
Dos 25 verões que passamos juntos, cada um teve a sua musa: PF, abajur, frescobol, anu, melancia, lagarto, playground de madeira, coruja, boia em forma de ilha, café de cápsula, urubu, campinho de futebol, suco da praia, escorrega, caqui, cadeira de rodas da minha sogra, escondidinho, vôlei de piscina.
Neste ano, já são duas as sugestões: a centrífuga que comprou e não usamos, e a Leona, personagem do teatro de bonecos que nosso filho apresenta. Nenhuma me pegou. Não que ainda queira ser musa. É que eu mesma saberia quem eleger. Pensei na mega boia de flamingo pink que não cheguei a comprar, mas musa de verdade é a sanguessuga que a fisioterapeuta usa para curar minha contusão na perna. Transcutaneous electrical nerve stimulation, a musa do verão é você.
Cris Vazquez é escritora, Mestre em Literatura pela UFSC e advogada pública. É autora do romance O abismo entre nós (Editora Moinhos) e participa das coletâneas de contos Onisciente contemporâneo e Translações singulares.
Site: www.crisvazquez.com.br onde você encontra seus livros.

