Em um ranking divulgado em 2015 pela Harvard Business Review, o segmento de construção aparece como o segundo pior em adoção de tecnologias digitais no planeta. O estudo avaliou 23 mercados em processos como transações financeiras, ações de marketing e nível de digitalização de processos e o setor de construção, que envolve também serviço de imobiliárias, tirou nota vermelha em todos os quesitos. Só perdia para o setor de Agricultura e Caça.
Enquanto o setor financeiro já conversa com as startups graças às fintechs e até mesmo o marketing tem suas martechs, por que não surgiam também as construtechs? “A maioria das startups voltadas à indústria da construção e imobiliárias está ainda em estágio inicial, com empreendedores na primeira experiência. Além disso, são poucas, por isso não vem atraindo muita atenção”, explica Bruno Loreto, CEO da Construtech Ventures, uma iniciativa pioneira no país que tem como objetivo atrair, desenvolver e investir em startups deste mercado.
Isso está acontecendo dentro da Softplan, em Florianópolis, que atua no setor de construção civil e apoiou iniciativas de inovação como a de Bruno – funcionário da empresa desde 2010. Das seis startups do portfólio, cinco foram criadas na Ilha (a outra é a recifense CoteAqui) e desenvolvem inovações como um marketplace de terrenos para empreendimentos, além de plataformas para gestão de crédito imobiliário e prevenção de distrato de imóveis.
“No venture building, você traz o empreendedor com um bom perfil e cria junto com ele desde o momento zero. Os empreendedores que estão com a gente não tinham condições de fazer isso sozinhos. São pessoas que tentaram por conta própria ou que tiveram dificuldades e precisam de uma ajuda” afirma Bruno, que espera ampliar o portfólio para 20 startups até 2020.
Darwin e a evolução
Há três anos, difícil era encontrar startups de qualquer mercado em nível de maturidade para investimento de risco – coisa superior a alguns milhões de reais. Foi essa necessidade de buscar projetos e empreendedores e desenvolvê-los que levou à criação do Darwin Starter, uma aceleradora nascida da Fundação Certi, que já formou 30 startups em três turmas. Esses novos negócios criaram 207 empregos e faturaram, em 2017, R$ 24 milhões.
A aceleradora inspirada na teoria da “seleção natural” do naturalista britânico Charles Darwin agora também estará em São Paulo, como já antecipamos aqui no Acontecendo Aqui na primeira coluna do ano: “a maioria esmagadora de startups com o perfil que buscamos está em São Paulo e queremos ficar mais próximos dos empreendedores de lá. É um mercado diferente, outro mindset. Nós já temos posicionamento, mas a partir de agora queremos ser os protagonistas no cenário de early stage. É isso que buscamos indo pra São Paulo”, define Marcos Mueller, CEO e um dos fundadores da aceleradora, que hoje tem como parceiros corporativos empresas como Neoway, RTM, CNSeg Par e B3.
Em janeiro de 2018, o Darwin abriu inscrições para a quarta turma – a primeira a receber startups também em São Paulo, além da sede em Florianópolis. O objetivo é selecionar outras 10 empresas inovadoras de áreas como fintech, seguros, big data e telecom, que receberão aporte de R$ 170 mil por, em média, 12% da startup.
Falando em investimento e negócios…
Em meados do ano passado, conversei com alguns investidores estrangeiros que estavam em Florianópolis conhecendo o ecossistema local e, quando perguntava sobre a possibilidade de investir em empresas e fundos catarinenses, a resposta era a mesma: “sobre o Brasil, só lemos notícias sobre corrupção e crise financeira”. Dois assuntos que fazem qualquer investidor fugir como o capeta diante de uma cruz.
Ontem, após a condenação do ex-presidente Lula em segunda instância, perguntei para alguns empreendedores e investidores locais se o resultado unânime do tribunal poderia reverter em boa impressão do país para o capital internacional. Alguns foram otimistas, pero no mucho: apesar da sinalização de que o país está combatendo a corrupção e a economia saindo do atoleiro, a maior preocupação é com a instabilidade no processo eleitoral. O cenário, avaliam alguns empreendedores, pode ficar até pior com Lula insistindo na disputa presidencial.
Brasil: novo unicórnio no pedaço
Mesmo com esse cenário nebuloso envolvendo política e negócios, uma empresa brasileira conseguiu fazer uma proeza e tanto nesta semana na Bolsa de NY: o PagSeguro, empresa de meios de pagamento que pertence à UOL, levantou nada menos do que US$ 2,3 bilhões em oferta de ações. Com essa capitalização, se tornou “oficialmente”, o segundo unicórnio brasileiro (empresa de base tecnológica com valor de mercado superior a US$ 1 bilhão), ao lado da 99, adquirida na primeira semana do ano pela chinesa Didi Chuxing. Especula-se se 2018 será o Ano do Unicórnio para o mercado de inovação brasileiro.
