Em nossa rotina cotidiana de muitos afazeres, acabamos por nos afastar das dimensões coletivas que sustentam nossa forma de viver. E, inadvertidamente, esquecemos que as condições de existência cultural, social e política são contingenciais e que precisamos nos manter alertas pela sua garantia.
Sem dúvida, quem viveu os anos amargos de ditadura sabe que nosso céu de hoje é muito mais azul, que as águas novas saciam nossa sede e o verde nos insufla os pulmões para aventuras maiores. Não falo aqui apenas da qualidade de vida, a qual também, graças às normas constitucionais ambientais, tem alcançado conquistas e avanços, mas de questões elementares como a liberdade e a dignidade humanas.
Com todas as limitações que o Brasil enfrenta e todos nós sentimos, cada um com suas particularidades, é a condição de Estado Democrático de Direito que nos garante o exercício das liberdades de expressão, de participação política, econômica, artística, etc. E a Constituição de 1988 marca esse resgate civilizacional para nós, brasileiros.
Imperfeitos somos nós, imperfeitas nossas leis e instituições: é o traço humano. Isso não desmerece o valor das conquistas humanizantes (apesar da aparente contradição) que conduziram à consagração do ideal: liberdade, igualdade e fraternidade.
Queremos avançar em direitos sociais e coletivos, desejamos o melhor futuro para nossos filhos e netos, vida de qualidade, realização profissional e pessoal, viver em paz e harmonia com todos os demais povos do planeta. Não podemos esquecer que esses objetivos têm como pressuposto as liberdades básicas do exercício da cidadania, as práticas de direitos e deveres políticos.
A história da humanidade recomenda atenção redobrada quando se trata de coibir a barbárie – às vezes nem tão explícita. A própria arte do alheamento, que nos permite não perceber o que transcorre para além da nossa individualidade, colabora ingenuamente com os ímpetos de violência e com outras tantas “desumanidades” que abominamos.
O existir humano é feito de tensões entre vários aspectos antagônicos, vivemos na incerteza. Os valores éticos, que remontam às primeiras civilizações e que dialeticamente se constituíram em lemas como os o da Revolução Francesa, por exemplo, só permanecem vivos se, em nossas práticas de cada dia, nos fazemos solidários, fraternos e exercemos nossas liberdades com responsabilidade.
O dia 5de outubro de 1988 foi um dia de festa para o Brasil, o marco da retomada da democracia, a promulgação de uma nova Carta de Direitos e Deveres repleta de declarações inflamadas de paixão pela liberdade e de vontade de transformação. Um momento histórico de conquista coletiva que precisa ser lembrado e comemorado, para que jamais paire sobre os brasileiros a ameaça do retorno à barbárie do autoritarismo.
