Crime organizado, catástrofes naturais, corrupção, exploração de menores, de mulheres, assassinato a sangue frio, crise econômica, inflação, desemprego, tráfico de pessoas, drogas e dramas: resumo do noticiário.
Diariamente, somos confrontados com o realismo trágico das notícias sobre a vida que levamos, a sociedade a qual pertencemos, as ruas por onde andamos, as roupas que vestimos, as crenças que assumimos. E tão cruéis nos parecem, que já as não identificamos como nossas. Por outro lado, a exploração comercial das tragédias como notícia gera descrédito quanto à legitimidade da informação/denúncia e desinteresse pelos problemas reais.
Há um distanciamento que se acentua e aprofunda entre nós, em nossa individualidade, e a realidade que nos cerca. A insensibilidade é um sintoma claro desse processo. Preferimos um isolamento confortável (embora bastante restritivo), vivendo em redomas seguras, condomínios paradisíacos, fortalezas comerciais, a conhecer as causas dos dramas e tragédias alardeados e agir para sua transformação.
É preciso evitar que o telespectador confunda o jornalismo com telenovela e passe a acompanhar o destino do novo “protagonista” passivamente até o próximo episódio; que fotos de pessoas amarguradas em sua tragédia se reduzam a papel de embrulho no dia seguinte; que fatalidades sejam tratadas como objeto de piadas nas redes sociais.
O grande desafio da atividade comunicativa é sensibilizar e envolver as pessoas, de modo a tirá-las do estado de letargia e medo, é recuperar o tecido comum dos sentidos cognitivos e perceptivos, promovendo uma cadeia propícia às soluções.
A comunicação é a via essencial da sustentabilidade de que tanto falamos. A identificação de valores em comum, capaz de amparar uma sociedade (agora planetária), é indispensável para o enfrentamento dos desafios coletivos que surgem diariamente nas telas como “furos de reportagem”. Para reverter essa condição paralisante é preciso que não deixemos banalizar a violência, não confundamos a arte da vida com um espetáculo macabro.
A crítica, a denúncia, o debate, a informação consistente, são instrumentos nobres de promoção da liberdade, da democracia e da cidadania, e conduzir essas atitudes com sensibilidade é uma arte. Promover um sentido comum, um futuro desejável, prazeroso, com segurança, com saúde, com dignidade para todos, deve ser um compromisso permanente da comunicação pessoal e institucional, se pretendemos exercer a plena liberdade de sermos felizes!
