Imagine que você está andando por uma estrada, rumo a uma cidade que você gostaria de viver, mas no meio do caminho é obrigado a fazer uma parada em uma espécie de delegacia. O xerife local lhe diz que, para continuar, você precisa escolher entre um de dois homens que sobreviveram a um duelo em que havia outras pessoas. Você não concorda com a disputa e nem tem interesse em defender um ou outro, mas enquanto analisa as alternativas, lhe são atribuídos adjetivos pejorativos e ameaças no caso de escolha de um ou outro. É mais ou menos em um cenário como esses que me sinto nessas eleições, principalmente neste segundo turno.
Tudo tem se resumido a um faroeste, dividido entre mocinhos e bandidos, dos dois lados, que mostram cartazes de “procura-se vivo ou morto” uns contra os outros. A eleição se tornou um duelo armado, em que não cabem argumentos. Ou você está de um lado ou você está de outro. O menor sinal de não escolher um logo lhe coloca na condição de defensor do outro, o que é interpretado como um desafio de luta armada. Não há outros temas possíveis que não estejam diretamente relacionados à disputa, pois tudo ganhou conotação de duelo eleitoral – você nem toca no assunto e logo aparece um sujeito para desafiá-lo politicamente.
A diferença dos antigos duelos do velho oeste para os atuais está na substituição dos saloons pelas redes sociais, mas o motivo permanece o mesmo, ou seja, uma questão de honra e dignidade matar o rival para provar que A é melhor do que B e garantir a suposta sobrevivência dos mais fortes. Assim como na antiguidade, os duelos nunca têm hora e data marcada, sempre são motivados pelo calor das discussões e envolvem rivais muito próximos uns dos outros – ouse dizer que os dois candidatos deste segundo turno são muito parecidos e fazem parte do mesmo lado da moeda esquerdista mundial para ver o tiroteio a que você será submetido.
É justamente nesse dualismo, de bem contra o mal, da suposta direita contra a esquerda, nesse reducionismo, que reside a minha sensação de viver um faroeste eleitoral. Não se respeitam mais as opiniões, tudo é encarado como defesa integral de uma ideologia, são raras as discussões baseadas em argumentos e escassas as razões para escolha de um ou outro – mas quem dá bola para a razão quando são as paixões que movem as discussões e as decisões eleitorais? De olhos vendados vamos nos desafiando até que possamos nos virar e trocar tiros até a morte, da verdade, do bom senso, do respeito e da amizade. Bang!
