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50 tons de bege
29 de Janeiro de 2013

50 tons de bege

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Por Ligia Fascioni 29 de Janeiro de 2013 | Atualizado 03 de Dezembro de 2021
Fotografia: Natalia Kolesnikova Fotografia: Natalia Kolesnikova

Não é a primeira vez que tenho que escolher um piso para minha cozinha, mas achei que agora ia ser diferente. Estou em Berlin, cidade das mentes abertas e das pessoas coloridas.

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Vã ilusão.

Tal como no Brasil, é tudo, mas absolutamente tudo bege. Quando eu falei 50 tons, menti. Na verdade, devem ser bem uns 5000 tons de bege à disposição da pessoa que não quer se arriscar.

Penso que a casa diz muito sobre a pessoa, principalmente se ela teve oportunidade de escolher os acabamentos (num apartamento alugado isso é mais difícil). Mesmo assim, dá para “ler” a habitação e deduzir se quem mora lá é uma pessoa conservadora, se é preocupada com a ecologia, se é ligada em marcas e rótulos, se é despojada, se gosta de uma baguncinha aconchegante ou prefere casa de revista. Se gosta de tradição ou prefere rock’n roll, se é religiosa ou mais desencanada. Se admira arte abstrata, se gosta de plantas, se ama de bichos, se lê muitos livros, se valoriza o luxo, se curte artesanato ou fotografia. Se tem filhos ou não. Enfim, a casa é como a roupa e os objetos da pessoa; serve para traduzir e comunicar quem é seu dono.

Que a pessoa use roupas convencionais e não pense muito a respeito, até dá para entender. Muitos preferem o conforto do tradicional para não correr o risco de serem mal interpretados.

Mas a casa, minha gente? Não entendo porque uma casa deva ser toda bege. A casa é o refúgio do seu dono, onde ele pode ser o que bem entender. Na casa só entra quem a pessoa quiser e mesmo assim, quando ela assim o desejar.

Dentro de casa, cada um vive seu mundo sem ter que dar satisfações para ninguém. Se minha mesa de cabeceira é feita de caixas de chocolate empilhadas, problema meu e de quem mora comigo. O chefe, os parentes, os amigos, a sociedade civil organizada, ninguém precisa saber ou ter opinião a respeito.

É diferente do meu cabelo. Posso pintá-lo de azul, mas como está exposto, muitas interpretações são possíveis. Longe de mim achar que todo mundo precisa ter cores convencionais de cabelo; estou apenas tentando demonstrar que a casa é um esconderijo só seu, completamente protegido dos olhares alheios (se você quiser assim).

De novo: então por que o piso tem que ser bege? Por que não pode ser laranja, lilás, amarelo ou roxo? Por que tanto bege, ‘deosdocéu’?

O mundo é do bege e sua priminha sonsa, a “areia”. O bege é o que não decide, o que não assume, o que deixa como está. O bege é a não cor. É a coisa que se pretende invisível, que não quer ser notada. O bege não ousa, não emite opinião, não se mostra. O bege se mimetiza e finge que não existe. É a sujeira escondida, é a poeira em toda sua onipresença incômoda.

Não bastasse meu desprezo gratuito por essa cor, esse por si já seria um motivo: como vou manter o chão limpo se não consigo ver o que não devia estar lá?

Beges são aqueles que se fazem de mortos, não se comprometem com nada,  tentam passar despercebidos para garantir seu lugar sem ninguém notar.

Em todas as intervenções mais ou menos radicais que fiz nos apartamentos onde morei (tipo derrubar todas as paredes), sempre tinha alguém bege para alertar: mas assim ele perde o valor de venda; a próxima pessoa pode não gostar dessas ousadias.

Bolas, como assim vou passar anos da minha vida morando num lugar que não é a minha cara em favor do possível gosto de alguém que nem sequer conheço? Comprar um carro prata porque é mais fácil de vender? Pintar o prédio de bege porque não desvaloriza o imóvel? Que vidinha mais triste essa de viver para agradar estranhos (que talvez nem gostem de bege tanto assim; é possível que também já comprem pensando no valor de mercado). Uma corrente bege infinita, de gente desbotada e sem graça.

Sim, pode ser que você realmente goste de bege. Gosto é gosto e não se discute, no máximo se opina (que é o que estou fazendo agora).

Mas acho injusto que os beges tenham um mundo de escolhas à sua disposição e as outras pessoas não tenham quase nada. Se quiserem algo diferente, precisam mandar buscar lá na casa da pandorga pagando um preço abusivo por algo que nem é tão especial; só porque não é bege.

Meu sonho de consumo: que todos os objetos possíveis pudessem ser escolhidos em uma cartela Pantone®. Você escolhe e pronto, é o mesmo preço para qualquer cor (inclusive os vários beges).

Fala sério: é pedir muito uma cozinha com piso Cyan?

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