Publicidade
Diga-me como é sua porta e te direi quem és….
08 de Outubro de 2012

Diga-me como é sua porta e te direi quem és….

Publicidade
Por Ligia Fascioni 08 de Outubro de 2012 | Atualizado 03 de Dezembro de 2021

Há alguns anos aconteceu um fato que me marcou muito, apesar de aparentemente trivial.

Publicidade

 

Morava num prédio que, apesar da excelente localização, era antigo e não tinha elevador. As portas dos apartamentos eram todas diferentes, tanto nas cores como na textura (algumas tinham até aqueles relevos e vernizes de caixão de defunto, sabe?). Mas enfim, gosto é gosto, cada um tem o seu e isso nunca me incomodou.

 

Ao me mudar, logo percebi que aquela diversidade poderia me ser favorável, pois adoro diferenças. É que eu tinha planos mirabolantes para a minha porta que jamais poderiam ser colocados em prática em um edifício novo, com portas padronizadas.

 

Fiz da minha entrada uma manifestação de boas vindas aos visitantes e passantes. A ideia é que ninguém (nem eu), conseguisse passar da soleira para dentro com a cara amarrada ou mau humor. Para mim, alto astral é tudo num lar.

 

Cuidei para que o tema não ofendesse ninguém, não fizesse propaganda de partidos políticos, religião ou times de futebol, que não fosse agressivo, enfim, que não conseguisse reunir elementos nem mesmo para ofender o mais ortodoxo dos muçulmanos. O objetivo era um só: provocar bem-estar, bom humor, divertimento. Mostrava uma moça sorridente fotografando o visitante (a lente da câmera era o meu olho mágico).

 

Pois eis que alguns dias depois recebo uma correspondência do condomínio intimando a mudança da minha porta no prazo máximo de 5 dias porque ela estava “fora do padrão”, sob pena de receber multas diárias. Ora, ora. Então quer dizer que o condomínio tinha um padrão? Qual seria? E ainda pensei, na mais pura ingenuidade: mas como será que todo mundo vai mudar as suas portas em apenas 5 dias? E fui bater na porta da síndica (por sinal, de uma madeira entalhada que eu nunca tinha visto nas redondezas).

 

Bom, conversamos bastante, eu pressionando para saber qual era o padrão, ela desconversando. No final, confessou: alguns moradores a obrigaram a tomar uma providência porque a minha porta estava muito diferente. Cada um podia ter a porta que quisesse, o problema era só com a minha. Isso mesmo — e o pior é ninguém a achou feia, nem ofensiva, nem mesmo de mau gosto. As pessoas apenas estavam incomodadas porque ela era muito diferente do normal.

 

Resumo da ópera: fiquei muito magoada, chateada mesmo, mas acabei trocando a tal da porta, pois ela acabou causando um efeito contrário ao desejado, então tinha perdido o sentido. Mas confesso que aquilo me derrubou um pouco e até hoje me lembro do episódio com tristeza.

 

De qualquer forma, já estava um pouco acostumada. Sofri outras vezes por ter algumas ideias diferentes do normal: fui cobrada sistematicamente tanto por gente conhecida como estranha porque escolhi não ter filhos; consegui amealhar inimigos que investem até hoje seu precioso tempo me enviando e-mails desaforados porque não concordam com minhas ideias sobre design e sobre atitude profissional de designers (certa feita fui desclassificada em um concurso para professor numa disciplina onde tenho doutorado sob a ridícula alegação de que não possuía diplomas e publicações suficientes); transformei um apartamento de três quartos num quarto e sala, derrubando todas as paredes, para escândalo de muitos; matriculei-me numa auto-escola para aprender a pilotar motos aos 39 anos. De fato, tenho que concordar com essa gente: não sou normal não. E estava ficando cada vez mais difícil me adaptar às portas-padrão…

 

Talvez por isso é que quando cheguei em Berlin e vi que a senhorinha que trabalhava como caixa no supermercado tinha metade do cabelo verde e a outra metade pink; que casais gays andavam de mãos dadas sem incomodar ninguém; que pessoas fantasiadas de personagens de quadrinhos pegavam o metrô sem chamar atenção; que um homem de peruca chanel e sandálias altas podia tomar café na padaria rodeado de amigos vestindo ternos escuros sem ser incomodado; que cachorros frequentavam livrarias; que as fachadas eram ousadas e originais; e que, veja só, até as portas eram todas bem diferentes, bem… me senti em casa.

 

Impossível descrever a sensação de ter finalmente encontrado meu espaço no mundo. Definitivamente, nasci para viver numa cidade assim, onde as pessoas não são julgadas por suas portas. Não tenho nenhuma identificação com a língua e nem com a cultura desse lugar, mas sua essência me atrai e me completa.

 

Berlin, somos duas anormais, amiga. E juntas, espero, seremos felizes para sempre…

Publicidade
WhatsApp
Junte-se a nós no WhatsApp para ficar por dentro das últimas novidades! Entre no grupo

Ao entrar neste grupo do WhatsApp, você concorda com os termos e política de privacidade aplicáveis.

    Newsletter


    Publicidade