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Direita, volver!
25 de Março de 2011

Direita, volver!

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Por Ligia Fascioni 25 de Março de 2011 | Atualizado 03 de Dezembro de 2021

 

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Ilustração: Fernando Vicente

 

Essa prevenção contra livros de auto-ajuda ainda vai me fazer perder muita coisa boa. O que me salva é que vivo cercada por pessoas inteligentes e bem menos preconceituosas que eu. Olha que sorte: um aluno da pós-gradução (profissional experiente que tem muito mais a me ensinar do que eu a ele) me apresentou um livro daqueles que você fica pensando: como é que eu vivi até hoje sem ler isso?

Trata-se de “A revolução do lado direito do cérebro”, de Daniel Pink. Custei um pouco para achá-lo (nossas livrarias são pródigas em Brunas Surfistinhas e em Paulos Coelhos, mas muito econômicas na variedade de títulos), mas valeu a pena. Com esse nome chinfrim, afundado lá na seção de auto-ajuda, eu jamais teria o prazer de lê-lo sem a intervenção do Jorge.

O autor apresenta, de maneira simples e didática (porém, muito bem fundamentada), as fases da nossa valorização como profissionais na história da economia recente. Na Era Industrial, o mais importante era ter músculos e persistência diante da adversidade. Gente com esse perfil era imprescindível nas linhas de montagem, e estava no topo da valorização (brutamontes incansáveis inspiraram personagens heróicos e inesquecíveis, ícones do ser humano ideal).

Com o advento da Era da Informação, onde os computadores entraram em cena, bom mesmo era o sujeito que pensava de maneira estruturada, era fera em lógica e matemática. Enfim, uma espécie predominantemente racional. Eram (alguns ainda o são) olhados sempre com respeito, pois faziam parte da elite dos “inteligentes”. Pink argumenta que essa classe, representada principalmente pela galera da tecnologia, está sendo substituída por profissionais mais baratos, oriundos principalmente da Ásia (Índia, Tailândia e China, na dianteira). Europeus e americanos que estavam na crista da onda viram sua praia repentinamente ser tomada por haoles e estão tomando um caldo atrás do outro. Os salários caíram e a competência subiu.

O autor conclui que estamos entrando agora na Era Conceitual onde é preciso substituir a capacidade de análise pela de síntese. Integrar, em vez de modularizar. Dar mais espaço para o emocional e o artístico. Fazer as coisas de uma maneira diferente da lógica e convencional, ou, simplesmente, desenvolver a capacidade de cativar e emocionar.

Ele usa a metáfora dos dois lados do cérebro. O esquerdo é analítico e ocupa-se com a razão, com a estrutura, com a modularização das informações. É com esse lado que a gente aprende a ler e escrever, a formar palavras, a atribuir significados aos números, a encadear seqüências lógicas, a analisar criticamente um problema.

O lado direito ocupa-se da síntese e trata da emoção, do subjetivo, do contextual. Esse é o lado que reconhece um rosto (sem se preocupar com as partes), que interpreta e entende piadas e frases de duplo sentido, que sintetiza informações, que conecta, que cria e inova.

O lado esquerdo é seqüencialO direito, simultâneo. Todo mundo precisa dos dois para viver (e sobreviver), mas o lado direito andou meio esquecido e desvalorizado por uns tempos. Agora ele volta a ser lembrado e vitaminado para contribuir mais.

Como bem lembra Pink, a excelência se produz quando os dois lados superpoderosos viram amigos e transpõem a barreira que os separa. Nenhum é mais importante que o outro. Mas para quem desenvolveu muito só um lado, convém dar uma atenção agora para o outro também, senão não vai conseguir se adaptar aos novos tempos.

Um conceito que o autor utiliza muito bem para demonstrar a revolução do lado direito é a crescente popularização do design, onde antes só se via tecnologia.

Ele demonstrou isso com uma aborgadem tão original que me surpreendeu pela simplicidade e pela síntese do problema. Imagine o projeto de uma torradeira. Do ponto de vista racional e técnico, ela tem que funcionar direito (é a utilidade do objeto). Mas projetada por um designer, ele também vai cuidar de lhe prover um conceito, que deve traduzir um significado.

Agora pense no uso da torradeira. Em média, ela é utilizada apenas 15 minutos por dia (em 1% do tempo do tempo ela é essencialmente função).  Nos outros 1.425 minutos (99% do tempo) ela simplesmente não é usada. É, portanto, apenas significado. Então, por que não dar mais atenção ao aspecto conceitual ao se conceber um objeto? Por que não construir torradeiras lindas, que tragam prazer aos olhos, ao tato? De novo, ressalte-se que a função (utilidade, razão) continua sendo indispensável (ninguém gosta de loiras burras), mas o significado (a forma, a mensagem, a emoção, a estética) precisa ser melhor tratado.

Não faz todo o sentido? Pois é, tenho que confessar que o raciocínio lógico-analítico-seqüencial me encanta, e desconfio que ele é que permite que eu consiga fazer tantas tarefas simultaneamente de forma organizada e estruturada. Como passei a maior parte da minha vida entre números, programas e funções, estou com o lado esquerdo praticamente inchado.

Mas agora tenho que dar de comer para o lado direito. Minhas incursões pelas áreas do design e das artes plásticas serviram para desenferrujá-lo um pouco, mas ele ainda está muito magrinho. E pessoas pensas, seja para um lado ou para o outro, não se movimentam bem, não conseguem desenvolver todas as ideias que poderiam.

Alguns dos melhores engenheiros que conheci sabiam muito de história, esportes e um deles, inclusive, estudava música erudita. Amyr Klink, o navegador genial, escreve e fotografa muito melhor que muitos profissionais que conheço. Pintores consagrados como Da Vinci, sabiam tudo de geometria e mecânica.

Reza a lenda que a gente usa menos de 10% da capacidade do cérebro. Então, para que economizar o aprender, né?

Lígia Fascioni  |  www.ligiafascioni.com.br

 

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