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À procura de um quartinho
19 de Dezembro de 2011

À procura de um quartinho

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Por Ligia Fascioni 19 de Dezembro de 2011 | Atualizado 03 de Dezembro de 2021

 

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O processo de aprendizado do alemão tem me rendido ideias interessantes. É que nós brasileiros, quando aprendemos espanhol, italiano ou francês (não sou fluente em nenhuma delas línguas, mas tenho os conhecimentos básicos), temos como prioridade aumentar o vocabulário, já que os idiomas latinos são relativamente parecidos. Em relação à gramática, é mais uma questão de fazer algumas adaptações ao que a gente já conhece, mas nada assim tão radical.

 

O inglês, apesar de mais diverso e sem a raiz em comum, tem uma estrutura gramatical até mais simples do que a nossa, o que facilita bastante. Então, o foco é, novamente, o vocabulário.

Já no alemão, há que se lidar com os dois problemas ao mesmo tempo: aprender praticamente todas as palavras do idioma (não dá para aproveitar quase nada do que se trouxe de casa) e tentar entender a gramática, que define a maneira como as frases são construídas (claro que isso só se aplica a quem aprende depois de adulto e já está com as sinapses formadas; quem aprendeu em criança já cresce com o cérebro mais turbinado).

A verdade é que os alemães realmente pensam diferente da gente. A maneira como eles constroem as palavras (boa parte não tem no dicionário porque é urdida na hora, conforme a necessidade) é completamente fora de tudo o que eu já tinha visto e traduz bem a maneira como a cabeça desse povo funciona (não é melhor nem pior, apenas muito diferente). Eles vão juntando pedaços de outros vocábulos que, no contexto, mudam de significado e vão formando novas ideias.

Olha só um exemplo:

vor = antes de, diante

hängen = pendurar

Schloβ = fechadura (mas também pode ser castelo, palácio)

vor + hängen + Schloβ = Vorhängeschloβ = cadeado

Mas atenção: Vorhang é cortina e Schloβer é serralheiro. É genial, mas ao mesmo tempo, cheio de armadilhas!

A gramática também é um assunto à parte; até porque não é só uma questão de declinações, gêneros ou tempos verbais. É a maneira como a frase é elaborada que faz a coisa ficar mais estranha quando se tenta comparar com o português ou mesmo o inglês.

Não é raro eu conhecer o significado de todas as palavras de uma frase curta, e mesmo assim não ter ideia do que elas juntas querem dizer. Até porque os alemães têm uma predileção especial pela voz passiva (em vez de dizer "o gato comeu o biscoito" eles preferem "o biscoito foi comido pelo gato"), como se a língua já não fosse complicada o suficiente.

Quer ver? Olha só: "Um acht Uhr sieht Fritz an".

Um = por volta de

acht = 8

Uhr = hora

sieht = verbo ziehen flexionado = puxar

Você pensaria: bom, às 8 horas o Fritz puxa alguma coisa. Mas não; é que na verdade, o verbo que está sendo usado é  anziehen, que significa vestir-se. É que em algumas situações, o verbo se despedaça e o "an" vai lá para o final da frase e muda tudo. Se a frase for bem comprida, imagina só o drama. Bolas, como lidar?

A questão é que aprender alemão é basicamente sair da zona de conforto onde a gente compara a novidade com o que já sabe e faz alguns ajustes. Aqui tem que começar do zero mesmo.

É preciso encontrar um lugar na cabeça que seja completamente livre de preconceitos, de ideias de como as coisas devem ser, e sem nenhum traço da nossa própria língua.

Tem que parar de fazer comparações e se entregar mesmo, de mente e coração abertos. Há que se achar um quartinho limpo dentro do cérebro, sem móvel nenhum, nem mesmo tapete. E começar a construir um jeito novo de dividir e usar os espaços, de se movimentar lá dentro, de fazer caber tudo sem atulhar demais.

Olha, confesso que depois de 3 meses de aulas diárias, ainda estou com a mochila cheia à procura do tal quartinho. Mas tenho certeza de que vai ser uma alegria essa "casa nova" para ajudar a ter ideias. É mais um ateliê morando em mim, são mais ferramentas para pensar, é mais uma coleção de lentes para ver o mundo.

Acho que o efeito é o mesmo se a pessoa tentar aprender russo, chinês ou árabe. Tem que virar tudo do avesso e abrir mais um espaço na cabeça para pensar de outro jeito. Que bom se todo mundo pudesse ter essa oportunidade, né?

Bom, não sei se vou ficar fluente no idioma de Goethe, mas pelo menos meu cérebro está fazendo bastante exercício. Do "alemão" é eu não preciso ter medo….eheheheh

***

PS: O "alemão" é como é conhecida popularmente a doença de Alzheimer, cujo nome é uma homenagem ao médico alemão que a diagnosticou pela primeira vez. Uma das maneiras mais eficientes de evitá-la, veja só, é exercitando o cérebro…

***

Crédito da imagem: Dominik Ã…Å¡miaÅ‚owski e Monika Prus

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