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“O orgão e o saxofone”. Você sabe de onde vem a palavra digital?
29 de Janeiro de 2012

“O orgão e o saxofone”. Você sabe de onde vem a palavra digital?

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Por Ligia Fascioni 29 de Janeiro de 2012 | Atualizado 03 de Dezembro de 2021

 

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Sabe de onde vem a palavra digital? Vem do latim digitus, que em bom português é dedo, desses que você tem 5 em cada mão. Antes da palavrinha cair na boca do povo, era tudo analógico, o que quer dizer que as ondas elétricas que mostravam a variação da grandeza no tempo eram análogas à natureza do negócio a ser medido.

Para facilitar a manipulação e simplificação dessas ondas tão complexas é que a eletrônica transformou tudo em dígitos. Em vez de toda a infinita gama de variações possíveis, a coisa passou a ser modularizada. O sistema digital tem esse nome porque resolve tudo com um dedo só (ou um bit, como queira). Se o dedo está levantado, significa 1 (sinal); se está abaixado, é zero (não sinal). Ou seja, o sistema digital transforma tudo em 0 ou 1. Sempre há perdas na transformação, pois, ao contrário do analógico, cuja resolução é infinita, no sistema digital sempre há que se tomar uma decisão sobre quantos dedos levantados ou abaixados vou usar para representar a mesma coisa (ou seja, quantos bits).

Tá, mas por que esse papinho nerd agora? É que acabei de vir de um concerto na Filarmônica de Berlin que me fez pensar essas coisas. Não, não estou louca; já explico a relação entre os assuntos: é que o concerto era com apenas um órgão* (desses de igreja, que ocupa uma parede inteira de tubos e é operado por meio de uma coisa parecida com um piano) e um saxofone. Sim, a música clássica contemporânea pode ser bem ousada quando quer: eles simplesmente reuniram um órgão, cuja morada natural é uma igreja bem antiga, com um sax (para mim, o instrumento mais pagão e sensual de todos). Olha, não entendo muito de música, mas adorei a mistura inusitada.

Uma das coisas mais sensacionais nessa cidade é que as crianças todas aprendem música clássica na escola e ouvem-na desde pequenininhas; o resultado é que os músicos eruditos são como atores globais por aqui e os espetáculos, numerosos, estão sempre cheios. As estrelas aparecem em revistas, programas de entrevistas, jornais, cartazes espalhados pela cidade e são tratadas como celebridades. As fotos das instrumentistas parece um book de propaganda de shampoo; os maestros, por sua vez, capricham no ar de mocinho descabelado de romance antigo.

 

Bom, já sei que tem gente aí com o discurso previsível pronto e ensaiado: "isso é que é país de primeiro mundo; cultura boa é essa, não pagode e nem axé".

Pois era justamente nesse ponto que eu queria chegar. Sim, aqui tem música clássica da boa e todo mundo gosta. Mas deve ser também a cidade com a maior quantidade de clubes por metro quadrado do continente. E toca de tudo: house, rock, world, jazz, blues, metal, coutry, pop, folk, progressivo, trance, fusion e todas as variações eletrônicas com aqueles nomes estranhos que nomeiam também as tribos; não me surpreenderia se tivesse pagode. Tem espetáculo de música africana; tem batuque caribenho, tem Bebel Gilberto, tem Lady Gaga, tem Adele e tem Michel Teló também, sim senhor.

Isso, para mim, é que traduz a real cultura. Não se deixar deslumbrar pelo digital, pelo sim OU não, pelo isso OU aquilo. O que impede a pessoa de sair de uma ópera direto direto para um café que toca música cubana? A lendária banda Scorpions (sim, eles ainda existem) compartilha a mesma bilheteria de ingressos que aquele maestro com estampa de canastrão, o André Rieu. Uma violoncelista célebre e o Coldplay podem jantar no mesmo restaurante que as pessoas não se ofendem ou tomam partido como se fossem torcedores fanáticos de clubes de futebol adversários.

É que eles sabem que o mundo é, na verdade, analógico. A digitalização traz conforto e simplicidade sim, mas para para não se perder informações importantes é preciso de muito mais dedos do que sonhamos ter. Por que teimar em digitalizar tudo, categorizar os gostos em bom ou ruim, certo ou errado, feio ou bonito, brega ou chique, culto ou popular, 1 ou 0?

A ideia não é decidir o que as pessoas têm que gostar ou não. A ideia é justamente explorar as infinitas nuances que o analógico permite; prover o maior número possível de opções e variações para cada um escolher o que quer, sem ter que abrir mão de nada.

Parece que tem um povo que anda meio esquecido disso, mas não custa lembrar: gente, a vida não é digital; a vida é analógica, com todos os ruídos e imperfeições que isso implica. E com todas as infinitas possibilidades também.

_______

* NOTA 1: Nunca tinha visto ninguém tocando um órgão antes. A moça, de 22 anos, virtuose consagrada e ganhadora de vários prêmios, senta num banco comprido e toca com as mãos os 4 andares de teclado; os pés operam um quinto teclado, que fica no piso do instrumento. Pois ela sapateia, faz moonwalk e dança mexendo o corpo todo enquanto toca; teve uma peça que ela tocou inteirinha só com os pés. Analógico no último…

NOTA 2: Sim, é claro que o controle interno do instrumento devia ser eletrônico. Antes dos comentários óbvios, quero dizer que estou usando aqui os sistemas analógico e digital apenas como metáfora, ok?

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