Acontece, de vez em quando, de uma amiga pedir conselhos sobre um novo relacionamento. Como se houvesse uma fórmula ou uma receita. Quem não conhece os mais diferentes casais e suas (des)razões para estarem juntos? Pessoas jovens com outras de avançada idade. Casais que não param de brigar, mas não se largam. Personalidades totalmente distintas, mas que juntas, são só harmonia. E por aí vai. Claro, nem tudo dá certo a dois. Às vezes, a três! Há casos extraconjugais que duram tanto que é quase um outro casamento, simultâneo. Tem quem prefira uma relação aberta. E há, ainda, “o amor que não ousa dizer o seu nome”, na clássica definição de Oscar Wilde. Sem falar em quem prefere viver sozinho(a), mas não necessariamente sem ter relacionamentos– sexuais ou amorosos. São muitos “modelos”, convencionais ou incomuns. Porque, como disse Caetano, “a gente nunca sabe onde colocar o desejo”.
Para decifrar sentimentos, recorre-se, não raro, à ajuda de forças místicas. Práticas que atravessaram milênios. Cartomantes, por exemplo, costumam ter clientela fiel, geralmente feminina, ansiosa por saber quando virá e como será a pessoa com quem irá compartilhar momentos felizes. Ou, no caso de quem encontrou alguém “para chamar de seu”, o que o destino reserva para essa união. Opções não faltam para perscrutar o que se oculta nas sombras do destino: tarôs de todos os tipos (egípcio, cigano, tibetano etc), numerologia, astrologia, quiromancia, pêndulos e até a cafeomancia, que tenta antever os segredos da alma humana e os presságios pela borra de café. Isso para quem ainda toma café com coador, cada vez mais raro pela concorrência do café solúvel.
Apesar de todos os avanços da tecnologia ou de quantas máquinas engenhosas o ser humano for capaz de criar, creio que “alguns mistérios hão de ficar por aí”. Para todo o sempre. Um deles, o que faz com que duas pessoas se apaixonem. Talvez descobriremos antes a origem do universo do que os enigmas que se escondem em cada coração. Pelo menos em relação ao Big Bang parece haver alguma lógica!
Para tudo aquilo que se revela mais indecifrável, prefiro os poetas aos cientistas. Como o genial português Luis Vaz de Camões, que viveu no século 16: “Amor é fogo que arde sem se ver, / É ferida que dói e não se sente, / É um contentamento descontente, / É dor que desatina sem doer.” E define-o, ainda, mais adiante: “É um não contentar-se de contente, / É cuidar que se ganha em se perder, / É um estar-se preso por vontade”.
Para quem já tem o seu amor, só posso desejar, como Vinicius de Moraes, “que seja eterno enquanto dure”. E para quem ainda está em busca, melhor acreditar num “Happy End”, como no poema de Cacaso: “O meu amor e eu / nascemos um para o outro / agora só falta quem nos apresente.”
