
Em Florianópolis, uma ilha com três pontes e uma quarta sendo anunciada, com crônicos problemas de mobilidade urbana, soa estranho cada vez que alguns especialistas – brasileiros ou estrangeiros – sugerem soluções combinadas de transporte rodoviário, marítimo e ferroviário – sobretudo este último. Não é diferente em outras médias ou grandes cidades, descontadas as características individuais. Cada vez que se propõe o uso de trens elétricos de superfície ou veículos em trilhos ou monotrilhos, há uma sensação de espanto no ar. “Isso é irreal”, ouve-se, com muita frequência, de uma população acostumada a tantas deficiências. “É muito caro”, logo antecipam autoridades ignorantes ou de má-fé e gestores que nunca souberam ou quiseram fazer direito as contas.
Quanto custa uma cidade e uma população paralisada? Trabalhadores que gastam horas engarrafados no trânsito? Pessoas que desistem, muitas vezes, de se locomover a uma determinada área da cidade porque sabem o quanto de sacrifício isso exige. Sem falar na poluição – atmosférica e sonora. E os acidentes? Os feridos? Os mortos? Quanto custa acostumar uma população a se deslocar em ônibus precários e superlotados, de forma desumana, como se isso não contribuísse, com o passar do tempo, para desumanizar todas as relações na sociedade?
O Brasil copia ou reinventa quase tudo dos países mais ricos – o way of life –, mas não é capaz de incorporar os modelos de mobilidade implantados e que interligam todos os modais de transportes, inclusive as ciclovias. Em vários países é possível alternar diferentes modelos: posso ir de bicicleta até uma estação de trem e continuar a viagem sobre trilhos. Posso intercalar ônibus, trem e metrô. Não é preciso – nem faz sentido – usar sempre o mesmo tipo de transporte do começo ao fim do deslocamento. As soluções precisam ser integradas.
Em vários países compram-se passagens para trens, metrôs e outros modais em praticamente todas as plataformas de embarque e desembarque. Muitas delas automáticas, operadas pelo próprio usuário. Em todas as plataformas – inclusive rodoviárias – não faltam informações sobre os destinos dos ônibus que trafegam por ali.
E tudo é pensado em termos de custo-benefício: quem compra bilhetes para um ou dois dias pagará mais caro do que quem adquire passes para uma semana, mês ou ano, por exemplo. Os custos são progressivos, em círculos, a partir da área central até os pontos mais distantes servidos pelo transporte urbano. No Brasil, todos esses critérios não têm a mesma clareza. Muito menos as facilidades para operar. Faltam transparência e informações para os usuários, que precisam ser tratados como cidadãos, e transportados com conforto, segurança e agilidade.
Para que tirar o carro da garagem – para quem o tem – no deslocamento diário pela cidade ou entre cidades, se é possível fazê-lo de modo muito mais tranquilo, rápido e econômico por transporte coletivo? Ao longo dos anos, o custo-benefício mostra-se amplamente compensador, tanto que é adotado por cidades de médio e grande porte. Os chamados VLT – Veículo Leve sobre Trilhos –, uma entre tantas possibilidades que demoramos tanto a adotar, são uma solução bastante difundida em muitos países que diminuíram substancialmente seus problemas de mobilidade urbana.
No Brasil, um país que está entre as dez maiores economias do planeta, o custo não pode ser a eterna desculpa. A menos que sejam os custos da ignorância, da corrupção e da má gestão.
