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Devolvam a gaiola para a criação
12 de Junho de 2014

Devolvam a gaiola para a criação

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1.    Uma mãe e um bebê camelo estavam por ali, à toa, quando o bebê camelo perguntou: – Por que os camelos têm corcovas?

– Bem, meu filhinho, nós somos animais do deserto, precisamos das corcovas para reservar água e por isso mesmo somos conhecidos por sobreviver sem água.
– Certo, e por que nossas pernas são longas e nossas patas arredondadas?

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– Filho, certamente elas são assim para permitir caminhar no deserto. Sabe, com essas pernas longas eu mantenho meu corpo mais longe do chão do deserto que é mais quente que a temperatura do ar e assim fico mais longe do calor.

Quanto às patas arredondadas eu posso me movimentar melhor devido à consistência da areia! – disse a mãe.
– Certo! Então, por que nossos cílios são tão longos? De vez em quando eles atrapalham minha visão.
– Meu filho! Esses cílios longos e grossos são como uma capa protetora para os olhos. Eles ajudam na proteção dos seus olhos quando atingidos pela areia e pelo vento do deserto! – respondeu a mãe com orgulho.
– Tá. Então a corcova é para armazenar água enquanto cruzamos o deserto, as pernas para caminhar através do deserto e os cílios são para proteger meus olhos do deserto. Então o que é que estamos fazendo aqui no Zoológico???
Moral da história: Habilidade, conhecimento, capacidade e experiências, só são úteis se você estiver no lugar certo!

 

2.    Quando escrevo estas mal traçadas o Festival de Cannes nem começou mas já dá para prever as notícias que chegarão de lá:

“Desempenho brilhante do Brasil”

“O país conquistou grande número de leões”

“Estamos entre os mais criativos do mundo”

 

3.    Na verdade, deveriam escrever:

“Estamos definitivamente enquadrados”

“Estamos à altura dos principais países”

“Conseguiram esterilizar a comunicação brasileira”

 

4.    O que, alas, já se tem escrito há muito tempo.

Em 1975, em fascículo editado pelo Clube de Criação de S. Paulo, então presidido pelo Zaragoza, William Bernbach advertia:

“Estamos tão ocupados reunindo estatísticas, que nos esquecemos da nossa capacidade de criar. Se Churchil tivesse dado ouvidos à opinião pública mundial e se tivesse se orientado, sem nenhuma emoção, pelas estatísticas, teria chegado à conclusão lógica de que não havia esperanças e a Inglaterra, e talvez o mundo livre não estariam aqui para contar a história…. Pode ser que estejamos em detalhes demais. Pode ser que nossas ideias em propaganda estejam caindo por terra, baleadas por essa onipotente máquina da eficiência norte-americana.”

 

5.    Dá olha olhada pra trás e veja o que aconteceu. Repare que nas últimas décadas as multinacionais de comunicação, apoiada pelas multinacionais das outras áreas invadiram o país e  tomaram conta das agências brasileiras.

Rapidamente os criativos foram arrancados de suas gaiolas para atuar em um mesão. Ali passaram a discutir estatísticas, planejamento, mídia. E o tempo para falar de criatividade minguou.

Fora da gaiola – que por sinal não tinha porta – perderam a espontaneidade. Uma coisa era conversar a dois, a outra era  botar pra fora a ideia que irresponsavelmente aparecia.

“Na nossa profissão, a nossa raiz, o que nos mantém vivos, o que faz com que possamos crescer continua sendo a criação, a ideia. Ela que alimenta todo o setor da comunicação,” disse Roberto Duailibi em palestra sob o título A Raiz e as Folhas, que pronunciou na abertura do 1º. Encontro Nacional de Criação, no Rio de Janeiro.

E ele tem razão desde aquela época. Como diz a girafinha das história:

Então a corcova é para armazenar água enquanto cruzamos o deserto, as pernas para caminhar através do deserto e os cílios são para proteger meus olhos do deserto. Então o que é que estamos fazendo aqui no Zoológico???”
Ou, trocando em miúdos, da que adianta ter tantos recursos se não conseguimos usar o principal?

Dentro da gaiola, os criativos se expunham. Quando saiam dela, voavam livremente, eram felizes. Sem ela, se inibem, perdem a espontaneidade.

6.    “E daí”, perguntarão os cínicos, “ se estamos  sendo consagrados lá fora?”

7.    Daí que quem compra está aqui dentro, no nosso mercado, incomodados com o nível dos comerciais que criamos, cada vez menos interessantes. Daí que, em consequência, a comunicação de massa perde rapidamente a força, carregando os criativos com ela.

 

 

 

 

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