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O Publicitário e o Violeiro
09 de Abril de 2013

O Publicitário e o Violeiro

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  1. Li, outro dia, no Estadão, artigo de José de Souza Martins sob o título Viola Caipira. Nele, Martins conta que “foi no Theatro Provisório, na noite de 13 de outubro de 1887, uma quinta-feira, que a viola caipira saiu dos caminhos da roça e dos vilarejos do interior e subiu pela primeira vez a um palco na cidade de S. Paulo.”

Depois de narrar o sucesso obtido por Pedro Vaz, o violeiro que “levava nos braços seu rústico pinho popular, a viola de dez cordas de arame”, Martins mostra a importância desse instrumento na história social e econômica do Brasil.

“Até então ela era um instrumento musical de pessoas consideradas ínfimas. Não era incomum, no ‘anúncio de escravos fugidos, sobretudo mulatos, a indicação de que se tratava de um violeiro.”

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“São vários os indícios de que a viola libertava o espírito dos cativos, o que os impelia à fuga. A viola era o instrumento da liberdade, dos que viviam à margem do mundo criado pela escravidão.”

“Entre os tropeiros, geralmente mestiços oriundos da escravidão indígena, os verdadeiros caipiras, era freqüente a presença de violeiros tangendo a viola nos ranchos de estrada.” (…)

“A ascensão social da viola caipira está diretamente ligada ao movimento cultural e político de formação da nacionalidade, associado ao fim da escravidão e da proclamação da Republica.”

        2. Também em uma quinta-feira cheguei a S. Paulo no começo da noite. Estava cansado, o dia aqui em Florianópolis tinha sido estafante, e a sexta-feira me reservava importante reunião com um prospect. Aí, li em um jornal que naquela noite aconteceria um Festival de Violeiros  no Teatro do SESC, no bairro de Pompéia.

Fã incondicional da música de raiz e por consequência de Inezita Barroso, cujo Viola minha Viola assisto todos os domingos, mandei o cansaço às favas, tomei um banho, troquei de roupa e fui para o Teatro.

O show começou, os violeiros se sucediam. Cada um deles tocava contava causos, sem nenhuma preocupação com o horário. Quase duas da manhã, o espetáculo não tinha acabado. A apresentação continuava, e alguns violeiros ainda não tinham se apresentado.

Exausto, mas consciente da importância do meu compromisso daquele dia, deixei o Teatro. Feliz com o que tinha visto e ouvido, mas frustrado com o que não tive forças pra ver.

3. O exercício da publicidade tem muito a ver com a arte da viola.

Como o violeiro, o publicitário – aquele que de fato ama a profissão que abraçou – não se desliga nunca. Na boca da noite, quando sai do escritório, leva consigo a forte vontade de criar soluções geniais para o problema que recebeu durante o expediente. A solução que encontra traz a mesma sensação de liberdade que o violeiro sente.

Em casa, no boteco para um happy hour  ou para um    tira gosto, ele dedilha o pensamento criativo. E não raro, quando está em casa, entre uma conversa e outra com a mulher ou o marido, ou uma brincadeira com os filhos, anota a idéia nova que surgiu. No papel ou no cérebro mesmo.

Como bons violeiros, os publicitários de verdade, os que vivem esse processo de criação permanente independentemente da sua função dentro da agência, são alegres, descontraídos. (Ambiente de liberdade, alegria e descontração são, aliás,  o oxigênio de que necessitam para criar.) A sensação de liberdade, quando a ideia chega, está para o publicitário como a viola para o violeiro.

Não por acaso, as agências que entendem esse processo, não são nada burocráticas. Dão a eles a liberdade que precisam. E se tornam as mais criativas.

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