Viagem ao Centro do Poder
27 de Fevereiro de 2013

Viagem ao Centro do Poder

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1. “Um dia vou subir lá”. Quem cochichava isso ao meu ouvido, depois de me dar um cutucão, era um garoto, dono de uma pequena produtora do Rio de Janeiro. Chamava-se João Daniel. João Daniel Ticomirov, se é que é assim que se escreve o sobrenome dele.

Naquele momento estávamos no Palais du Cinema, em Cannes, assistindo a entrega dos Leões aos campões do Festival Internacional de Cinema, de Cannes

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Não me lembro em que ano foi isso, mas me recordo perfeitamente do jeito fascinado com que João Daniel assistia a cerimônia.

De lá para cá, muita água correu em baixo da ponte. Chegado ao Brasil João Daniel, percebendo que o mercado paulista oferecia muito mais oportunidades que o carioca, levou a produtora para S. Paulo e logo fez dela uma das melhores do país. Ele próprio, um dos mais disputados diretores de comerciais.

Outro dia o Estadão trouxe um anúncio em que apresentou os jurados do Cannes Lions. A foto do João Daniel está lá. Ele não só subiu ao palco para buscar seus leões, como foi além dele.

 

2. Regina Augusto é uma jornalista extraordinária. Mostra isso, toda semana, nos editoriais que escreve no Meio&Mensagem e na forma como dirige a revista. E comprova, agora, no livro No Centro do Poder (Ed. Virgilliae), onde retrata a MPM e a vida profissional e mpresarial  de Petrôneo Correia, vista com os olhos argutos dela.

Regina mostra os bastidores da propaganda brasileira, descreve a influência dos movimentos políticos do país na publicidade brasileira e nos dá uma visão de como Mafuz, Petroneo e Macedo souberam construir uma agência que, nascida em Porto Alegre, expandiu-se pelo Brasil a ponto de se tornar a maior do país, sem perder suas raízes gaúchas.

 

3. Claro que tendo vivido intensamente aquele período, senti algumas lacunas.

Por exemplo, quando ela conta como o Alex Periscinoto trouxe para o Brasil um jeito novo na época, que aprendeu na DDB, de fazer propaganda criativa. Penso que ali ela foi injusta, ao não citar,  os irmãos Toni – o Plínio e o Sérgio, que muito contribuíram com o Alex e a Almap na implantação do trabalho de duplas atuando juntas.

Ou quando não valorizou, como merecia, a década de sessenta, que marcou o surgimento da mais brilhante geração de criativos da história da propaganda brasileira; do Prêmio Colunistas, pai e avô de todos os prêmios da categoria; do Clube de Criação de S. Paulo, criado em oposição ao Colunistas, que serviu de exemplo para todo o Brasil.

Mas isso é muito pouco diante da grandiosidade da obra.

 

4. Com um talento extraordinário, Regina Augusto consegue carregar o livro de emoção, ao mesmo tempo que informa e ensina.

Mostra como o M, o P e  o outro M se conheceram, tornaram-se amigos e admiradores mútuos, construíram a maior agência do país na época,  deixando de ser a agência do governo João Goulart para se tornar, sem soluço de continuidade,  a maior agência do governo militar – e desvendando, assim, um mistério incompreendido até o lançamento desse livro.

Descreve a extraordinária capacidade de articulação de  Petrônio, destacando, por exemplo sua importante participação  na criação de toda a legislação publicitária, inclusive do Conar e do Cenp. Narra detalhes, alguns dramáticos,  da venda e do desaparecimento da agência, da morte de Mafuz e da aposentadoria do Macedo.

E quando quer criticar, livra a cara do Petrônio, recorrendo a testemunhos de terceiros. Como, por exemplo, quando transcreve as seguintes declarações de Rodrigo Sá Menezes, então dono da Propeg:

“No final dos anos de 1980 brilhantes profissionais de criação resolveram tornar-se empresários de publicidade. Tinham talento, mas ainda não tinham todos os clientes que queriam e de que precisavam. Impacientes e agressivos, procuraram os clientes que mais lhes interessavam e, em troca da oportunidade de mostrar o seu talento, propuseram-se  a trabalhar por uma remuneração inferior aos 20%. Assim, rapidamente ganharam cliente s credibilidade.  A notícia varreu o mercado, rápida como rastilho de pólvora. Logo, todos os clientes, de todas as agências, de todo o Brasil, passaram a questionar os 20%. Queriam pagar menos. O que aconteceu a partir daí foi esse novo tempo que a indústria da propaganda vive atualmente, e que trouxe inevitáveis consequências para as vida e o comportamento das agências, dos seus proprietários e de quem nelas trabalha.”

Mas Regina Augusto não se furta em dizer, em outros trechos do livro, de maneira mais ou menos sutil quais foram essas “inevitáveis consequências”, expressão que poderia ser substituída por enormes dificuldades.

 

5. Lendo No Centro do Poder, viajando até através do texto brilhante de Regina Augusto, lembrei-me do garoto João Daniel sentado so meu lado no Palácio do Cinema, cutucando-me para dizer: “um dia vou subir lá”. Porque quem de fato quer, tem talento, trabalha com honestidade  e encara o desejo como uma missão, um dia chega lá.  Como aconteceu com o Petrônio. Com João Daniel. Com a Regina Augusto, autora desse fantástico livro.

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