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1ª mulher a presidir a ACL terá biblioteca com seu nome em Florianópolis
23 de Junho de 2026

1ª mulher a presidir a ACL terá biblioteca com seu nome em Florianópolis

Espaço reunirá obras construídas ao longo de décadas pela escritora

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Uma vida inteira dedicada aos livros e à valorização da cultura catarinense ganhará o devido reconhecimento em Florianópolis.

Aos 79 anos, a professora, escritora, socióloga e primeira mulher a assumir a presidência da Academia Catarinense de Letras (ACL), Lélia Pereira Nunes, vai destinar o acervo pessoal que construiu ao longo de décadas para uma biblioteca que levará seu nome, em um novo empreendimento da RBV Incorporadora no Centro da cidade, reunindo obras sobre Santa Catarina, cultura açoriana e arte.

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O espaço, que é destaque no futuro empreendimento batizado de Monumental, no entorno da Avenida Rio Branco e da Rua Dom Jaime Câmara, nasce com a proposta de homenagear a mulher que se tornou símbolo da cidade, além de preservar um patrimônio intelectual construído ao longo de quase oito décadas.

O convite nasceu do encontro entre duas gerações unidas pelo desejo de valorizar a história da cidade. Em um momento em que a velocidade das transformações faz com que histórias e experiências sejam esquecidas, o empresário Gustavo Bulcão Vianna, sócio da RBV Incorporadora, decidiu seguir na direção oposta.

Ao conhecer a trajetória de Lélia Pereira Nunes, enxergou não apenas uma biblioteca particular, mas um patrimônio construído ao longo de uma vida inteira dedicada à educação, literatura e à preservação da identidade catarinense.

“Construir um empreendimento vai muito além de erguer um prédio. É também criar conexões entre passado, presente e futuro. A professora Lélia representa uma geração que dedicou a vida ao conhecimento e à cultura. Preservar esse legado é uma forma de demonstrar respeito por quem veio antes de nós e garantir que as próximas gerações tenham acesso a essa riqueza. A cidade cresce quando valoriza sua memória e aprende com seus mestres”, afirma Gustavo Bulcão Vianna.

A iniciativa também tem um significado especial para Lélia Pereira. Primeira mulher a assumir a presidência da Academia Catarinense de Letras em mais de 100 anos de história da instituição, ela vê na futura biblioteca uma oportunidade de garantir que os livros e memórias continuem circulando entre as pessoas.

“Eu considero isso algo inédito. Realmente uma biblioteca estar à disposição dos moradores é realmente uma referência”, destaca a professora Lélia.

Academia Catarinense de Letras

O acervo reúne obras dedicadas por autores, publicações ligadas à Academia Catarinense de Letras, pesquisas sobre os Açores, títulos voltados à compreensão da formação histórica e cultural do Estado e clássicos da literatura brasileira.

Para a professora, a criação do espaço tem um significado que vai além da homenagem individual. “As bibliotecas funcionam como lugares de encontro entre diferentes tempos, histórias e experiências. Acredito que a  memória continua viva, imaculada e atravessa gerações, mesmo com o passar do tempo. E o livro é o depositário do imaginário, das utopias que colorem ou enriquecem a vida.  Imaginem o mundo que está numa biblioteca à tua espera! Quantos segredos nas páginas de um livro? Quantas descobertas? É mesmo um universo mágico”, acredita Lélia.

A professora destaca que esse papel se torna ainda mais relevante em uma época marcada pela digitalização de conteúdos e pelo consumo acelerado de informação.

Mesmo reconhecendo a importância das novas tecnologias, a socióloga vê no livro físico uma experiência insubstituível. “Eu gosto do livro, do cheiro do livro, do material, do papel, da capa”, descreve a professora.

Cultura catarinense

A expectativa é que a biblioteca também ajude a aproximar moradores e familiares da história local, especialmente daqueles que chegam a Florianópolis vindos de outras regiões.

Na avaliação de Lélia, conhecer a cultura de uma cidade é uma forma de criar pertencimento e fortalecer vínculos com o território. Por isso, a seleção das obras deverá priorizar conteúdos relacionados à literatura, à história e à produção intelectual catarinense.

A proposta dialoga com uma ideia defendida pelo escritor Salomão Ribas Junior, já falecido, que defendia a presença dos autores catarinenses nas bibliotecas do Estado. “Nenhuma escola de Santa Catarina sem biblioteca e nenhuma biblioteca sem autor catarinense”, diz a professora, em referência à uma fala emblemática do escritor. 

Ao reunir obras que ajudam a compreender a formação cultural da Ilha e do Estado, a biblioteca pretende preservar um legado que ultrapassa gerações.

Uma história construída por escritores, pesquisadores e leitores que ajudaram a registrar a história catarinense e que agora encontrará um novo espaço para seguir  “São memórias, encontros e conversas que continuam acontecendo muito tempo depois de a última página ser virada”, pontua Lélia Pereira Nunes

A relação de uma vida com a leitura

A presidente da Academia de Letras de Santa Catarina mantém fortes laços com os Açores e as comunidades da diáspora nos Estados Unidos e Canadá há quase 40 anos. A primeira visita ocorreu em 1988. 

Desde então, as viagens se tornaram frequentes, com estudos  e trabalhos publicados em livros, revistas e jornais. Este constante vai e vem  contribuiu para a construção de uma das coleções particulares mais relevantes sobre o tema no Estado.

Entretanto, a história de Lélia com os livros começou muito antes da vida acadêmica. A professora recorda que o pai e a madrinha de batismo costumavam presenteá-la com livros durante a infância. Entre elas, clássicos de Monteiro Lobato que despertaram o interesse pela leitura ainda nos primeiros anos de vida.

Outra influência importante veio de uma professora vizinha, que mantinha em casa uma biblioteca particular que despertava fascínio na futura escritora. Foi nesse ambiente que ela descobriu enciclopédias,  o Tesouro da Juventude, Livro dos Porquês, os romances de Machado de Assis, José de Alencar, o português Julio Dinis, Eça de Queiroz e obras que ampliaram a sua mundividência.

“A biblioteca não é um lugar que guarda apenas livros.  É um lugar  vivo, onde o viver corre por entre linhas e páginas. Onde o diálogo entre personagens ou entre o autor e o leitor é intenso e flui em sintonia como uma casal dançando um tango numa entrega única”, finaliza Lélia Pereira Nunes.

Foto: Rudi Luiz Bodanose

 

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