O avanço da inteligência artificial tem elevado a preocupação das autoridades e especialistas em segurança digital diante das eleições de 2026. A expectativa é que o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) anuncie, em março, novas regras para o uso da tecnologia durante o período eleitoral.
A medida surge em resposta à rápida evolução das ferramentas capazes de criar imagens, vídeos e áudios falsos praticamente indistinguíveis da realidade: as chamadas deepfakes. O tema ganhou relevância diante do potencial desses conteúdos de influenciar a opinião pública ao manipular informações, afetando a confiança no processo democrático. A tendência é que a regulamentação estabeleça critérios relacionados aos limites para o uso de materiais gerados por inteligência artificial em campanhas e conteúdos eleitorais.
“Se, na eleição presidencial anterior, a de 2022, a preocupação era com as fake news, o alerta se volta agora, em 2026, para as deepfakes”, afirma Carlos Lopes, sócio da Codeminer42, boutique brasileira de desenvolvimento de software com atuação no Brasil e nos Estados Unidos.
Segundo o especialista, o cenário atual já desafia antigas referências sobre credibilidade da informação. Expressões como “só acredito vendo” ou “imagens valem mais que mil palavras” perderam força diante da sofisticação das ferramentas de manipulação digital.
“O desafio agora, além de tecnológico, é social. Quando a manipulação se torna praticamente imperceptível, o impacto recai diretamente sobre a confiança pública e isso exige respostas regulatórias e educativas igualmente sofisticadas”, avalia Lopes, que recentemente participou de um evento em Nova York voltado às tendências globais da inteligência artificial.
Dificuldade de identificação preocupa especialistas
Carlos Lopes cita ainda uma declaração recente do diretor do Instagram, Adam Mosseri, como um retrato da gravidade do cenário atual.
“‘Você não pode mais confiar nos seus olhos para dizer o que é real’, ele disse. Porque é exatamente isso: não basta mais ‘ver para crer’; é preciso ter outros meios para separar o joio do trigo, identificar o que é ou não real”.
Embora já existam softwares e plataformas capazes de identificar conteúdos produzidos por inteligência artificial, o especialista destaca que a verificação ainda está longe de ser simples ou acessível para a maioria da população. Em meio ao grande volume de vídeos, áudios, imagens e textos compartilhados diariamente nas redes sociais, torna-se praticamente inviável que o eleitor consiga checar individualmente a autenticidade de cada material.
“Além disso, uma parcela significativa da população, possivelmente a maioria, não possui conhecimento técnico, familiaridade com essas ferramentas ou tempo disponível para utilizá-las de forma adequada”, afirma.
Outro ponto de preocupação está na limitação das próprias ferramentas de detecção. Segundo Lopes, os sistemas atuais ainda apresentam falhas importantes.
“As ferramentas que tentam identificar conteúdo gerado por IA ainda apresentam falhas relevantes. Em muitos casos, classificam conteúdos legítimos como artificiais e, em outros, deixam passar materiais produzidos por inteligência artificial sem qualquer alerta. Isso cria um ambiente de incerteza, no qual nem sempre é possível confiar plenamente na análise automática”, explica.
Tecnologia também pode ser aliada no combate às fraudes
Para o executivo da Codeminer42, a atuação da Justiça Eleitoral, aliada ao monitoramento e à participação da população na denúncia de conteúdos falsos, representa um passo importante para reduzir os impactos das deepfakes no ambiente eleitoral. “Porque, além dos materiais de campanha oficiais, mais fáceis de fiscalizar, haverá a circulação das deepfakes, como vídeos, áudios e imagens adulterados com uso de IA, capazes de simular falas e situações que nunca aconteceram”.
Apesar das preocupações, Lopes acredita que o avanço tecnológico também pode trazer soluções para o problema no médio e longo prazo. Entre as possibilidades estudadas pela indústria, está a criação de assinaturas digitais em equipamentos de captura, como câmeras e smartphones, permitindo rastrear a origem de imagens e vídeos produzidos. “Essa assinatura ou ID seria um meio de confirmar que o conteúdo é legítimo e não feito por IA”, afirma.
Segundo ele, a própria evolução da inteligência artificial poderá fortalecer mecanismos de identificação e combate às falsificações digitais. “Se, por um lado, a IA sofisticada é utilizada para a produção de deepfakes e outros conteúdos falsos, a mesma IA avançada e outras ferramentas possibilitam identificar a falsificação, por mais perfeita que possa parecer”.
O especialista também destaca o papel da qualificação profissional nesse cenário. Para ele, a formação contínua de desenvolvedores e especialistas em tecnologia será essencial para ampliar a segurança digital e criar sistemas mais eficientes no combate a fraudes e ciberameaças. “Iniciativas que envolvam capacitação contínua e qualificação técnica são fundamentais para que o mercado esteja preparado tanto para absorver as inovações quanto para enfrentar os desafios que elas impõem”, conclui.

Foto: Magnific
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