A crescente presença de imagens padronizadas nos ambientes digitais levanta uma questão central: por que o conteúdo visual parece, cada vez mais, direcionado a algoritmos e não às pessoas?
Em março de 2026, o mercado global de inteligência artificial segue em forte expansão. Dados da Fortune Business Insights indicam que o setor movimentou US$ 294,16 bilhões em 2025 e pode ultrapassar US$ 2,48 trilhões até 2034. Mais do que automatizar processos ou viabilizar assistentes virtuais, a IA tem transformado a produção visual ao permitir a criação de imagens a partir de texto, acelerando significativamente o volume e a velocidade de conteúdos gerados por marcas, veículos e usuários.
Em um ambiente digital cada vez mais disputado, o aumento da produção de imagens não está ligado apenas à evolução tecnológica, mas também à pressão por desempenho. A necessidade de capturar atenção em poucos segundos, elevar taxas de clique e impulsionar conversões tem orientado decisões criativas. Nesse cenário, o design voltado à performance ganha espaço em detrimento de abordagens mais conectadas ao público. Elementos visuais chamativos, enquadramentos pensados para interromper o scroll e composições com estética genérica se tornam recorrentes. O resultado é uma comunicação eficiente do ponto de vista técnico, mas muitas vezes indistinguível entre marcas que disputam os mesmos indicadores.
“Está cada vez mais difícil captar a atenção das pessoas; portanto, a pressão para otimizar o conteúdo visual para plataformas digitais, somada à necessidade de ser mais rápido e com o menor custo possível, está influenciando diretamente a aparência da publicidade ou do marketing digital das empresas. No entanto, as marcas devem lembrar que estão interagindo com pessoas, não com algoritmos”, explica Samuel Malave, Gerente de Pesquisa Criativa na iStock.
Segundo análise do especialista, as audiências contemporâneas não apenas consomem conteúdo, mas também o julgam com mais rigor. Em meio à saturação visual, cresce a capacidade do público de reconhecer padrões repetitivos, estéticas padronizadas e narrativas claramente orientadas à venda.
Dados de um estudo de impacto visual realizado pela empresa com 6.000 participantes de todo o mundo mostram que os entrevistados distinguem com alta precisão entre imagens reais e aquelas percebidas como geradas ou fortemente modificadas. Quando uma imagem ativa sinais associados à superprodução como simetria rígida, iluminação uniforme, acabamentos excessivamente polidos, isso aumenta a probabilidade de ser considerada “encenada” ou “falsa”, o que, segundo a análise, reduz seu apelo. De fato, 68% dos latino-americanos afirmaram preferir que as marcas utilizem fotos reais e não modificadas.
“A IA pode gerar uma imagem razoável em apenas alguns segundos. Mas velocidade nem sempre significa qualidade”, afirma Malave. “Os dados mostram que certos códigos visuais como perfeição extrema, fundos neutros sem contexto, ausência de textura, despertam percepções de artificialidade. Nesses casos, a estética deixa de reforçar a mensagem e começa a enfraquecê-la. Em poucas palavras, pode ser que as marcas estejam alcançando o oposto do que buscam”, disse.
Para as PMEs, esse cenário tem implicações diretas. O mesmo estudo identifica uma relação consistente entre qualidade percebida e capacidade de captar atenção, além de evidenciar que variáveis como credibilidade e proximidade influenciam a avaliação geral de uma imagem. Quando múltiplas marcas da mesma categoria replicam fórmulas visuais semelhantes, o diferencial de cada uma fica menos evidente.
Em marketplaces digitais e redes sociais, essa repetição é nítida: retratos com enquadramentos praticamente idênticos, fundos neutros que eliminam o contexto ou cenas retocadas a ponto de apagar qualquer traço de imperfeição. Em contrapartida, a pesquisa indica que imagens com textura visível, profundidade e cenários reconhecíveis tendem a gerar níveis mais altos de credibilidade.
“Nossa análise mostra que atenção e qualidade estão completamente interconectadas, enquanto credibilidade e proximidade têm efeito na resposta emocional dos consumidores”, acrescenta Malave. “O conteúdo percebido como real e visualmente contextualizado mantém níveis mais elevados de confiança. A IA pode trazer dinamismo ou escala, mas seu uso exige direção clara”, afirma.
Em mercados digitais saturados, onde a atenção é limitada, o especialista indica que a combinação de imagens com textura autêntica, uso estratégico de vídeo e aplicação criteriosa de ferramentas de IA tende a gerar maior lembrança e ação. No entanto, quando se replica conteúdo genérico ou se imitam modelos preexistentes, o impacto perde força, especialmente em categorias nas quais a oferta visual costuma parecer uniforme.

Foto: Divulgação
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