À medida que a inteligência artificial avança, cresce também a percepção de que o marketing é uma das áreas mais expostas aos impactos da tecnologia. A conclusão aparece no relatório Labor Market Impacts, divulgado recentemente pela Anthropic, empresa responsável pelo desenvolvimento do modelo de IA Claude.
Segundo o estudo, o debate sobre inteligência artificial no marketing costuma focar em questões superficiais, como a capacidade da tecnologia de criar anúncios ou produzir conteúdo criativo. No entanto, essas atividades representam apenas cerca de 20% do trabalho na área. Os outros 80%, ligados a tarefas estratégicas e analíticas, podem ser ainda mais vulneráveis à automação.
Entre essas funções estão atividades como pesquisa com consumidores, análise de dados, dimensionamento de mercado, segmentação, estratégia de marca, posicionamento, definição de preços, mapeamento da jornada do cliente, desenvolvimento de novos produtos, previsão de resultados, elaboração de briefings e gestão de orçamento.
Boa parte dessas tarefas já passa por mudanças. A inteligência artificial vem sendo incorporada, por exemplo, à pesquisa de mercado por meio do uso de dados sintéticos, que podem ser produzidos mais rapidamente do que pesquisas tradicionais e, em alguns casos, com maior precisão.
O mesmo ocorre com análises competitivas e inteligência de mercado. Processos que antes exigiam equipes dedicadas agora podem ser executados com poucos comandos em ferramentas de IA.
Até mesmo apresentações estratégicas de marca, que costumavam levar semanas e exigir altos investimentos, podem ser estruturadas em pouco tempo com apoio de sistemas automatizados.
O relatório da Anthropic posiciona analistas de pesquisa de mercado e especialistas em marketing na quinta colocação entre as 800 profissões mais expostas à substituição por inteligência artificial, atrás apenas de programadores, atendentes de serviço ao cliente, profissionais de entrada de dados e especialistas em registros médicos.
De acordo com a empresa, 65% das tarefas desempenhadas por profissionais de marketing podem, no futuro, ser substituídas por operações baseadas em IA: um indicativo relevante sobre os desafios que o setor pode enfrentar na próxima década.
Por que o marketing é tão vulnerável
O relatório aponta quatro fatores principais para explicar essa exposição.
O primeiro é que grande parte do trabalho em marketing é baseada em linguagem. Estratégias, relatórios, apresentações, análises e recomendações são produzidos principalmente em texto, exatamente o tipo de conteúdo que modelos de linguagem de grande escala conseguem processar com eficiência.
O segundo fator está na própria natureza da atividade. O marketing combina processos estruturados com elementos criativos, criando um ambiente em que sistemas de IA conseguem identificar padrões e gerar soluções com relativa facilidade.
A terceira razão é estrutural: muitas áreas de marketing operam há anos com equipes enxutas e pressão constante por produtividade. Nesse cenário, a inteligência artificial surge não apenas como uma ameaça a empregos, mas também como uma alternativa para reduzir custos operacionais.
O quarto ponto diz respeito à formação profissional. Diferentemente de outras áreas, é possível trabalhar em marketing sem uma formação específica, o que torna parte da força de trabalho mais vulnerável à substituição por tecnologias automatizadas.
Impactos já começam a aparecer
Segundo projeções do Bureau of Labor Statistics, nos Estados Unidos, ocupações com maior exposição à inteligência artificial tendem a crescer mais lentamente ao longo da próxima década, e o marketing aparece entre as áreas mais afetadas.
Uma análise da consultoria Taligence mostra que as vagas de marketing nos Estados Unidos caíram 7% em relação ao ano anterior e 15% na comparação trimestral no segundo trimestre de 2025.
Quando o número de oportunidades diminui, profissionais que já estão empregados tendem a permanecer mais tempo em seus cargos. Dados do BLS indicam que a taxa de pedidos voluntários de demissão nos Estados Unidos caiu para 2%, o nível mais baixo em uma década.
Esse movimento reduz a rotatividade no mercado de trabalho e cria um efeito cascata: quando menos pessoas deixam seus cargos, menos vagas são abertas. Com o tempo, empresas passam a perceber que determinados postos talvez nem precisem ser substituídos.
Uma pesquisa da Marketing Week mostrou que quase um quarto das empresas de marketing cortou cargos de liderança no último ano e decidiu não substituí-los.
Com menos vagas disponíveis e menor mobilidade entre profissionais, os salários também tendem a estagnar. O levantamento CMO Survey 2025, que acompanha executivos de marketing nos Estados Unidos, apontou que os salários médios da área permaneceram estáveis no último ano, o que representa perda real quando considerada a inflação.
Profissionais jovens são os mais afetados
Um dos pontos mais preocupantes do relatório é que o impacto não ocorre de forma uniforme. Profissionais mais jovens e com maior nível educacional estão entre os mais expostos às mudanças.
Os dados indicam que a contratação de trabalhadores mais jovens em áreas altamente expostas à IA caiu cerca de 14% em comparação com 2022.
Isso acontece porque profissionais mais experientes acumulam conhecimento institucional, relacionamento com clientes e capacidade estratégica, elementos mais difíceis de substituir.
Já funções iniciais, como análise de dados, produção de apresentações e elaboração de primeiras versões de relatórios, são mais facilmente automatizadas.
Como os profissionais podem se adaptar
Diante desse cenário, especialistas apontam algumas estratégias para quem deseja continuar na área de marketing.
A primeira é investir em formação profissional, já que muitos profissionais do setor não possuem qualificação específica, fator que aumenta o risco de substituição.
A segunda recomendação é buscar crescimento na carreira ou considerar áreas relacionadas, uma vez que cargos de entrada tendem a desaparecer mais rapidamente.
Outra habilidade considerada essencial é aprender a utilizar ferramentas de inteligência artificial de forma avançada. No futuro, os profissionais que permanecerem na área provavelmente serão aqueles capazes de orientar e gerenciar o uso dessas tecnologias, e não competir diretamente com elas.
Por fim, especialistas recomendam desenvolver competências humanas difíceis de replicar por máquinas, como relacionamento com clientes, conhecimento institucional, capacidade de liderança e habilidades de negociação.
As transformações no marketing já começaram e devem se intensificar nos próximos anos. Segundo o relatório, o setor não necessariamente se tornará melhor ou pior, apenas profundamente diferente.
Se as projeções da Anthropic se confirmarem, essa mudança pode ser pelo menos 65% diferente do que conhecemos hoje.

Foto: Freepik
Fonte: AdWeek
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