Um novo estudo indica que os gêmeos digitais ainda não estão prontos para uso amplo em decisões estratégicas. Embora empresas estejam adotando essa tecnologia para prever comportamentos humanos a um custo menor do que pesquisas tradicionais, a metodologia ainda apresenta limitações importantes em determinados contextos.
A pesquisa, baseada em 19 estudos pré-registrados e em um painel representativo dos Estados Unidos, concluiu que os gêmeos digitais conseguem reproduzir respostas humanas com alto nível de precisão. No entanto, o desempenho cai em temas socialmente sensíveis, especialmente no campo político.
Para compreender os resultados, é essencial diferenciar os conceitos analisados. Gêmeos digitais são réplicas digitais em tempo real de indivíduos específicos, criadas a partir de dados primários, capazes de simular comportamentos no nível individual. Já as audiências sintéticas utilizam inteligência artificial para representar grupos inteiros, com base em dados agregados, oferecendo insights mais amplos e escaláveis. As personas genéricas, por sua vez, continuam sendo a base tradicional das pesquisas de consumo, construídas a partir de dados demográficos e narrativas estáticas.
O estudo concentrou-se nos gêmeos digitais, mas também comparou seus resultados com os das personas genéricas. Um dos diferenciais da pesquisa foi a possibilidade de confrontar diretamente as respostas de cada gêmeo digital com as de seu correspondente humano. Para isso, cada réplica digital foi criada a partir das respostas de seu par humano a 500 perguntas, distribuídas em quatro etapas de pesquisa.
Segundo os autores, as representações digitais de indivíduos têm potencial para transformar as ciências sociais e os processos de decisão nas empresas. O interesse pelo uso de dados sintéticos para simular respostas humanas cresce rapidamente entre pesquisadores e profissionais de áreas como tecnologia, consultoria, pesquisa de opinião e grandes corporações.
Entre os principais achados, o estudo aponta que a precisão dos gêmeos digitais no nível individual — cerca de 75% — não é significativamente superior à das personas genéricas baseadas apenas em dados demográficos. Além disso, os gêmeos não melhoram a estimativa da resposta média da população e tendem a apresentar respostas mais concentradas em valores intermediários, diferentemente da maior variação observada entre humanos.
O desempenho é mais consistente em temas sociais ligados a conflito, cognição social, personalidade e comportamento pró-social. Em contrapartida, nos assuntos políticos, os gêmeos digitais demonstram menor alinhamento com seus equivalentes humanos e, em alguns casos, parecem priorizar respostas socialmente aceitáveis.
A pesquisa também identificou maior precisão entre gêmeos digitais associados a participantes com nível educacional mais alto, maior renda, posições políticas moderadas e frequência religiosa regular.
Para profissionais de marketing, os resultados indicam a necessidade de cautela. Embora altamente racionais e tecnicamente precisos, os gêmeos digitais têm dificuldade em capturar a complexidade, os extremos e as contradições que caracterizam decisões humanas reais. Em um estudo paralelo sobre conhecimento de taxas de preços, por exemplo, os gêmeos digitais alcançaram 99,88% de precisão, enquanto os participantes humanos ficaram em 51,75%, evidenciando um descompasso entre racionalidade artificial e comportamento real.
Como resumem os autores do estudo, “embora os gêmeos digitais demonstrem potencial, eles ainda não estão totalmente prontos para o uso em larga escala”.

Foto: Pexels
Fonte: WARC
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