Tirei alguns dias de férias e fui visitar a Croácia pela primeira vez em minha vida. Sempre que viajo para algum país no exterior, faço conexões sobre política e economia com o Brasil. Que lições e observações consegui tirar dessa viagem?
A Croácia é um país pequeno, no sudeste da Europa. Com menos de 4 milhões de habitantes, ocupa uma área um pouco maior que metade de Santa Catarina. A economia tem forte participação do setor de turismo. Recentemente o país adotou o Euro como sua moeda, depois de cumprir várias exigências. Dentro da União Européia é um dos países mais pobres, tendo um dos menores IDHs (Índice de Desenvolvimento Humano) da região. Como comparação, o IDH croata é 0,82 enquanto o brasileiro fica em 0,75. Mas andando pelo país, a percepção da diferença é muito maior. A curva de melhora é muito clara. Como eles chegaram até aqui?
A Croácia foi governada por vários países ao longo dos tempos. Tem forte influência italiana. Porém, o período recente foi sob domínio da União Soviética. A antiga Iugoslávia era uma colcha de retalhos, com diferentes posições econômicas e religiosas. Essa organização política perdurou entre o fim da 2ª Guerra Mundial e o início dos anos 90. Com a crise do regime comunista soviético e a queda do Muro de Berlim, a Iugoslávia também entrou em colapso. Diferenças étnicas e religiosas afloraram. E principalmente econômicas, já que Eslovênia e Croácia eram os mais ricos, na comparação com Sérvia, Bósnia, Montenegro e Macedônia. Uma guerra fratricida começou e esses países passaram quase a década de 90 inteira brigando.
Ou seja, menos de 30 anos atrás o país estava destruído, depois de décadas de atraso econômico, político e cultural durante o período comunista, seguido de alguns anos de guerra. E hoje as cidades são organizadas, estradas excelentes. População trabalhando. Praticamente nenhum morador de rua. O que esse pessoal fez que a gente deveria observar para aprender?
A Croácia fez um investimento forte em educação. O país inteiro fala inglês, com consequente aceitação do turismo como fonte de renda importante. Quase zero violência. As pessoas têm liberdade para ir e vir sem nenhum tipo de constrangimento ou risco. Cidades limpas. Infraestrutura muito boa. Investimento forte em turismo náutico. O país tem marinas para atracação de embarcações de pequeno porte espalhadas em todas as cidades. O impacto positivo é evidente. Cada turista deixa, em média, 120 euros por dia de receita, entre hospedagem, alimentação e demais gastos. O que impede o Brasil de expandir esse tipo de indústria turística? Impostos elevados praticamente inviabilizam o comércio de barcos. Exigências ecológicas descabidas restringem a abertura de novas marinas. Teríamos milhares de empregos diretos e indiretos somente com um pouco mais de atenção a esse setor.
Outro ponto de convergência com a realidade brasileira: conversando com a população local, fica evidente que a guerra de independência não foi somente por conta de diferenças religiosas. A questão econômica foi o principal ponto. Existia uma transferência de renda enorme, das regiões mais bem estabelecidas (Eslovênia e Croácia) para as mais pobres (principalmente a Sérvia). Mais ou menos o que a gente vê no Brasil de hoje em dia. Sul e Sudeste brasileiros jogam dinheiro em um buraco sem fundo que é o Norte e Nordeste. Os políticos não prestam contas dos gastos e o dinheiro é muito mal empregado. Isso cria uma animosidade entre as regiões. É a perpetuação da pobreza como método de vida. Quanto mais pobre são os Estados de Norte e Nordeste, mais dinheiro é preciso para ajudar. Quem ousar questionar, é taxado como xenófobo ou anti democrata. Um ciclo vicioso sem fim. Na antiga Iugoslávia, eles recorreram a violência para resolver a questão. No Brasil, as coisas poderiam ser resolvidas com um choque de gestão pública e, principalmente, investimentos em educação e combate a impunidade nos casos de desvios desses recursos.
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