Marcelo Rubens Paiva participou semanas atrás do excelente Foro de Teresina, podcast da revista Piauí. O autor de Feliz Ano Velho, leitura obrigatória dos que foram jovens na época da redemocratização do País, lançou no fim do ano passado uma edição comemorativa do livro, que completou 40 anos em 2022. Ao longo dessas quatro décadas, novas visitas à obra resultaram em ajustes e mudanças em trechos do texto que o escritor considerou inadequadas para os novos tempos.
Autocensura? Pedido de arrego aos atentos canceladores que espreitam pelas redes sociais?
Nada disso.
Ao que tudo indica, Marcelo Rubens Paiva não é guiado pelo medo de julgamentos externos. Eventuais mudanças no texto são, antes, reflexo da percepção de que o mundo se transforma a cada dia. O autor sessentão percebeu, ao reler o que escreveu aos vinte e poucos anos, que algumas expressões não envelheceram tão bem – e podem ser substituídas sem comprometer a história.
Parênteses:
Feliz Ano Velho é autobiográfico. A história começa quando, de brincadeira com os amigos, o autor imita o Tio Patinhas e mergulha “de ponta” em um lago à procura do tesouro secreto. Ele bate a cabeça no fundo e fica tetraplégico. A partir daí, fala da rotina de recuperação, das dificuldades enfrentadas pelos deficientes físicos e, principalmente, dos dilemas típicos da juventude. Com ritmo rápido e palavreado moderno, está longe de ser datado. Boa opção de presente de aniversário mesmo para os adolescentes de hoje, que devem enfrentar incertezas e dificuldades muito semelhantes àquelas que tiravam a tranquilidade da gurizada dos anos 80.
Fecha parênteses.
O autor que opta por alterar a própria obra pode dar mostras de bom senso e respeito ao tempo. É perceptível que os indivíduos têm dificuldade para acompanhar a velocidade das mudanças na sociedade. Nas questões de costumes, tornar-se anacrônico é uma certeza – e só não se envergonha de algo que disse ou escreveu ao longo das décadas quem não tem memória, autocrítica ou idade suficientes.
Bastante diferente é pisar no pantanoso terreno do cancelamento. Vale lembrar que o termo é novo, mas a prática de demonizar obras e autores é antiga – e sempre teve e tem por base a crença de que o censor sabe o que é melhor para o resto da humanidade.
Erra quem pensa que a literatura serve para agradar o “consumidor” e que ler é um exercício que praticamos para reforçar crenças. Desconforto é bom parceiro do livro de cabeceira – e o confronto com ideias diferentes das nossas pode ser enriquecedor.
Aos entusiastas da modernidade, por exemplo, fica a sugestão do belo Antes do Fim, de Ernesto Sabato. O argentino, que já havia perdido as esperanças e as crenças nas decantadas maravilhas da tecnologia, propõe um “pacto dos derrotados” e mostra como o fetiche pelo novo e o individualismo exacerbado que tanto caracterizam a sociedade contemporânea podem ser danosos. Já os racionalistas empedernidos têm algo a aprender com a sabedoria do jovem protagonista do A
Balada de Adam Henry, de Ian McEwan. O inglês confronta argumentos racionais e crença religiosa ao narrar a discussão, no tribunal, de uma ação que obriga um paciente Testemunha de Jeová a receber a transfusão de sangue que pode salvar sua vida. Mais uma obra-prima imperdível para a conta do autor de Reparação e O Inocente.
Fundamental também é ter em mente, antes do apedrejamento, que as pessoas são reflexo e fruto do seu tempo. Isso não é um salvo conduto nem um perdão antecipado para falas ou textos que muitas vezes trazem ideias e concepções inaceitáveis nos dias de hoje. Em vez do cancelamento e da “queima” desses materiais, cabe a leitura crítica, essencial até mesmo para o entendimento de contextos sociais e históricos que precisam ser compreendidos para que não se repitam.
