O humano que convive com gatos é antes de tudo um ingênuo. Quando visita a cuidadora e anuncia a intenção de ser o futuro dono de um bichano, o sujeito tem a vida analisada em detalhes. “As janelas têm redes?” “Está disposto a comprar ração sem corantes?”
“Já sabe que ele considera a oferta de água parada verdadeira afronta a seus hábitos saudáveis?” “Qual o orçamento mensal para compra de brinquedos que serão olimpicamente ignorados?” Convicto de que a postura da inquisidora é exagerada, o depoente concorda com tudo e volta para casa com o novo amigo, um parceiro de todas as horas, mascote que vai deitar a seus pés e ali permanecer até ser enxotado, companhia nas noites insones (para o humano não dedicar horas da madrugada a escrever bobagens sobre felinos).
Doce ilusão.
Pense naquele indivíduo que conquistou uma ínfima parcela de poder e assume ares de autoridade cheia de salamaleques, incapaz de dizer obrigado ou cumprimentar pessoas que considera subalternas. Pois então: quando esse sujeito encontra um gato na rua, é o quadrúpede, não o humano, quem repete a famosa frase: “Você sabe com quem está falando?”
O tal homem importante pode até não perceber que sua presença é indesejada e insistir em brincadeirinhas tolas, convicto de estar cara a cara com parente próximo dos cães. Nesse caso assistirá, sem poder de reação, o gato caminhar lentamente para outro ambiente, com visível enfado.
Não há provas científicas, mas tudo indica que os gatos desenvolveram uma tradição de transmissão oral de histórias. Talvez na madrugada, enquanto seus súditos dormem, eles se encontrem nas praças ou parques e relembrem, reunidos em torno de uma fogueira, os antigos relatos de seu povo. Só isso explica o fato de todos saberem que são descendentes da deusa egípcia Bastet e que garantiram, caçando ratos e protegendo colheitas, a sobrevivência de uma das maiores civilizações da história antiga. O ponto alto desses encontros deve ser a exposição de fotos que mostram faraós ajoelhados aos pés de grandes estátuas de felinos, louvando e agradecendo o simples fato de eles existirem.
Portanto não tenha ilusões. Assim como o adolescente que acata as ordens paternas em troca da mesada, os gatos aceitam a convivência com humanos como condição necessária para garantir conforto e comodidade. Por enquanto, eles diminuem as tensões fingindo dormir 18 horas por dia. Isso até inventarem um pacote de ração que felinos possam abrir por conta própria.
Aí, adeus.
