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Coluna Leitura | Santa Catarina precisa conhecer a literatura catarinense
05 de Abril de 2023

Coluna Leitura | Santa Catarina precisa conhecer a literatura catarinense

Projeto Quinta Maldita reúne autores para apresentar suas obras em diferentes partes do estado

Por Rogério Kiefer 05 de Abril de 2023 | Atualizado 05 de Abril de 2023

Deus trabalhou demais da conta naquela primeira semana. Separou dia e noite, céus, terra e água. Desenhou e imprimiu em 3D a onça, a capivara, o elefante, a barata e o mosquito. Moldou no barro primordial a Eva e o Adão – e logo percebeu que aquele sujeito recém saído da lama e sem noção da própria insignificância era vaidoso demais e um tanto arrogante. Concluiu, como bom indivíduo onisciente que é, que a eternidade traria incontáveis arrependimentos. Tirou um dia – o sétimo – para descansar, avaliar o que fazer e bater papo com os subalternos – Gabriel, Miguel e Lúcifer, na época ainda em alta com o Chefe.

Mas nem Ele segura esse rojão sem uma válvula de escape. Em pleno domingo, quebrou a regra do descanso e fez hora extra na criação da jamburinha, mistura de açúcar, limão, gelo e cachaça de jambu, ideal para “molhar a palavra” e enfrentar problemas e decepções (nesse ponto da história, lembrem, o Adão já desconsiderava sugestões de nomes para animais dados pela companheira
Eva – uma fonte a mais de desilusão para o Criador).

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A mais antiga das receitas de drink, que chegou até nós depois de pequenas melhorias, é destaque no cardápio do Ponto Bar e Piadina, também conhecido pelos nascidos há mais tempo como “bar do Caio”, um dos lugares que vale muito visitar no Centro Leste de Florianópolis. E uma boa desculpa para a noitada etílica é a Quinta Maldita, projeto de divulgação da poesia e literatura catarinense organizado pelo músico, professor e escritor Demétrio Panarotto e pelo produtor cultural Marcio Fontoura. Na capital, o encontro será hoje (quarta-feira, dia 5), a partir das 19h.

O projeto da Quinta Maldita, aprovado pelo Prêmio Elisabete Anderle 2022, é gratuito e promove a aproximação entre autores novos e escritores já conhecidos. A produção do projeto é da Desterro Cultural em parceria com a Expancine Produções. Depois da capital, haverá saraus e oficinas literárias em Laguna (13/04), Imbituba (14/04), Balneário Camboriú (15/04), Porto União (26/04), Itajaí e Navegantes (em maio).

 

Um dos idealizadores do projeto, o escritor Demétrio Panarotto respondeu quatro ou cinco perguntas da coluna.


Por que fazer saraus? Isso não é antigo demais? Acha que vai despertar atenção das pessoas em 2023 ?

A palavra está sempre em movimento e os saraus, historicamente, são espaços para que possamos nos movimentar juntos. O Quinta Maldita já existe desde 2017 e já fizemos mais de 150 eventos entre saraus e programas gravados. Aqui em Santa Catarina a base sempre foi Florianópolis, mas já percorremos algumas cidades do interior do Estado, como é o caso de Balneário Camboriú, Itajaí, Navegantes, Rodeio. Fizemos programas também em Porto Alegre-RS e São Leopoldo-RS. Durante a pandemia fizemos saraus online com poetas de todos os cantos do Brasil e com os países da América do Sul e América Central, além de programas com poetas de Moçambique, Angola, Portugal, Espanha, dentre outros.

 

Poesias de quais autores serão apresentadas ?
O foco é no texto autoral. Os autores selecionam seus poemas e apresentam de várias maneiras: leituras, declamações, performances, acompanhados por um instrumento musical. Mas claro que sempre há espaço para os poetas que cada um carrega consigo – os escritores e escritoras que compõem o cânone nacional e mundial. E por aí passam as surpresas, em especial, nessa confluência entre os autores mais conhecidos e aqueles que são pouco lembrados mas que voltam a circular.

 

Como é feita a seleção dos participantes?

A ideia é movimentar os escritores e escritoras locais e o espaço é aberto para que as pessoas possam se expressar. Assim, não é realizada necessariamente uma seleção criteriosa. Há um convite às pessoas de cada cidade que escrevem. Depois, parte muito da vontade de cada um, cada uma, ocupar o espaço e se apresentar. Considerando ainda que há escritores e escritoras que nem sempre gostam dessa relação com o microfone, ou que, de outra maneira, preferem apenas o texto na sua relação com o papel.

 

Há novos poetas de qualidade em Santa Catarina?

Sim, há uma geração pulsante de escritores e de escritoras e o Quinta Maldita é uma das maneiras de que aos poucos esses nomes possam ocupar o espaço para apresentar os seus poemas.

 

Por que a literatura catarinense não alcança grande visibilidade e relevância no cenário nacional?

Acredito que a grande questão passa pela relação (ou equação) escritores e leitores. É um coeficiente a ser problematizado. Talvez se possa melhorar essa visibilidade a partir do momento em que Santa Catarina perceber e passar a ler os escritores locais. No meu modo de entender, esse é um grande passo. A partir daí teremos um movimento que torne a literatura visível no estado e nas demais regiões do país.

 

A dificuldade de visibilidade é ainda maior para autores do interior?

Santa Catarina é um Estado em que as regiões possuem polos muito fortes economicamente. A partir do momento que se entende que a Capital não é o município com a maior economia do estado, alimenta-se uma ideia de que o entendimento cultural do estado passa por outro lugar, que podemos chamá-lo de horizontalizado em relação aos demais estados. Há movimentação em todas essas cidades que compõem o mosaico cultural catarinense. Ainda, o mundo pós internet é outro e a possibilidade de circulação de cada autor passa também, para além de sua escrita, pela sua capacidade de mobilização. Isso faz com que haja bons escritores e escritoras nos mais variados cantos do estado.

 

Quem são os seus autores preferidos? Por que ?

Leio muito e a cada semana mudam os autores e autoras que se encontram na mesa ao lado da minha cama. Há sempre uma mescla entre os textos que estou lendo para as aulas na universidade, escritores que retomo com certa frequência e os mais recentes. Vou citar aqueles que nesse momento ocupam esse espaço: Ovídio, Jorge Luis Borges, Susan Buck-Mors, Ítalo Calvino, José Saramago, Clarice Lispector, Ricardo Pedrosa Alves, Noélia Ribeiro, Alex Simões, Cristiano Moreira e o livro do coletivo de mulheres Abrasabarca.

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