Florianópolis, que completa 350 anos agora em março, é uma cidade mágica, capaz de nos fazer acreditar novamente na vida, na pureza das pessoas e em um futuro mais amoroso.
Digo e comprovo.
Nascido e crescido em Joinville, por lá enfrentei algumas situações que abalaram minha crença na humanidade. Coisas simples.
Um dia você pede um Atari e o Papai Noel traz um dominó, golpe definitivo na credibilidade do bom velhinho. Depois a professora do primário, que você jurava corresponder à sua paixão, aparece noiva. Mas noiva de outro homem! E lá se vai o romantismo.
Aos sete, oito anos, essas pequenas desilusões corroem, mas não destroem em definitivo os sentimentos mais positivos que trazemos do ventre da mamãe. Os desentendimentos no campinho de futebol ainda são resolvidos de forma pueril. Os meninos ficam frente a frente, mais ou menos como fazem esses lutadores de UFC antes dos combates, e rosnam um para o outro por alguns segundos. Respeitam a sagrada lei de nunca falar da mãe do inimigo e depois de algum tempo largam a bola no chão, concluem a partida e saem abraçados, esquecidos do que houve.
Até o dia – anos depois, já no fim da adolescência – em que um dos amigos impõe novas regras ao confronto, reforçando sua posição com um murro no jogador adversário. A partir daí, o jovem sabe que não há mais como acreditar no mundo como um lugar idílico. A desconfiança é a regra – o cinismo, o modo de ser e estar na sociedade. A competição no mercado de trabalho e a necessidade de sobrevivência obrigam o indivíduo a saber que ganha a luta aquele que não é pego de surpresa. Ao contrário: quem se sai melhor é o primeiro a identificar a hora de trocar a ameaça ou o discurso por um belo cruzado no queixo do outro.
Mas a vida não pode ser assim. O homem não suportaria perder a doçura aos 17 e seguir incrédulo até o túmulo.
Quando mais velhos, sem a pressão da rotina da juventude ou dos 40, recuperamos a gentileza, a suavidade e a doçura. Sempre apostei nisso.
Vivo a idade adulta em Florianópolis.
E aqui, na vizinhança da Alfândega, paguei para ver que Florianópolis é o lugar para reencontrar o encanto com a vida.
Apostei no melhor sorriso ao me aproximar da simpática senhorinha parada na esquina, em um cruzamento de ruas especialmente movimentadas. Apoiada na muleta, a simpática vovó segurava com a outra uma placa de trânsito. Me aproximei e falei com carinho e os diminutivos que acreditamos serem necessários para a melhor compreensão de quem já passou dos 70. “Quer ajudinha para atravessar a ruazinha, vovozinha queridinha?”
Ela deu um sorrisinho e ergueu a mãozinha que tanto carinho já deu aos netinhos. Seus olhinhos azuizinhos brilharam, iluminando um mundo de ternura, meiguice e fraternidade. Se na meia idade somos cínicos, percebi, quando idosos recuperamos o que de melhor tivemos na infância. O futuro é cor-de-rosa e a gratidão dela, prestes a ser manifestada, havia de comprovar isso.
“Vá para o inferno, seu merda. Se quer chamar alguém de velha, ligue para a sua avó, moleque safado”. E assim se foi, na capital de todos os catarinenses, mais uma chance de ouro de restaurar em mim as esperanças na humanidade.
Foto: Rogério Kiefer
