Marcos entrou em casa disposto a olhar apenas o chão à sua frente, mas aquilo era ostensivo demais para não ser percebido. A calça do filho, João, estava mais uma vez largada sobre o sofá. Todo dia a mesma coisa. O rapaz ia tomar banho ou deitar e antes largava os jeans na sala. Mas não jogados de qualquer jeito. Em uma provocação gratuita, abandonava a peça “sentada”, como se houvesse um fantasma invisível diante da TV. Às vezes, cruzava as pernas da calça, o que era ainda mais irritante.
O pai xingou em voz baixa – “filho da puta!” “Miserável” – mas, como sempre, preferiu não entrar no quarto do rapaz e reclamar. Em vez disso, juntou o álbum de figurinhas do campeonato brasileiro que João sempre largava na mesa de centro da sala, arremessou longe o par de chuteiras do menino e foi para a cama sem jantar. Não queria conversa com a mulher, Ana, mas foi obrigado a responder com um “ele fez de novo” depois de ouvir incontáveis vezes a mesma pergunta: “o que houve? O que houve? O que houve?”
Ana não sabia o que dizer – e muito menos tinha ideia de como ajudar a reconstruir a antiga camaradagem que caracterizou desde sempre a relação de Marcos e João. A proximidade entre os dois começou a ser construída logo depois do nascimento do menino.
A médica diagnosticou icterícia. Explicou que o tom amarelado da pele do bebê ia desaparecer com duas semanas de exposição moderada ao sol. No dia seguinte Marcos acordou uma hora mais cedo para levar o menino na praça mais próxima e aproveitar o primeiro sol, considerado o ideal pela médica. Fez o mesmo durante meses, sempre de bom humor, encantado com cada som ou careta do filho.
Já na cama, calado e irritado, Marcos percebeu as lágrimas no rosto da esposa.
– Que foi?
– Lembrei de vocês. Tão próximos na infância. Os melhores amigos na pré-adolescência. Você ensinou ele a jogar futebol e a amar o jogo. E sempre fez tudo para entender nosso filho. Mas agora mal olha para ele. Não fala com o menino. Não é capaz nem mesmo de levá-lo a uma festa quando ele pede. Não responde quando ele faz uma pergunta. Sai de perto quando ele vai abraçá-lo. Ele já deixou tudo para trás.
Marcos tinha convicção de que a mulher estava errada e assumia um ar compreensivo para irritá-lo ainda mais. Qualquer proximidade com o rapaz, algo que foi sinônimo de alegria durante anos e anos, era fonte de desconforto para ele.
João ainda lembrava dos abraços diários de outros tempos, do companheirismo, das tardes no parque ou na praça e da disposição interminável do pai para brincadeiras. Nunca apanhou. Mais que isso: em 17 anos, sequer levou uma bronca.
Mas agora ele conseguia falar apenas o mínimo indispensável com o sujeito que o ensinou a andar com os próprios pés e de bicicleta. Também não percebia qualquer gesto de simpatia ou carinho vindo do pai. Em vez disso, quando Marcos estava em casa, tudo era atrito. A chuteira, comprada anos antes para a estreia do rapaz no time de juniores da cidade, era motivo de gritaria quando estava largada no meio da sala por um motivo qualquer. Na hora das refeições, falava amorosamente com a mãe – e era ignorado pelo pai. O único aceno que recebia era uma mesada deixada sempre no mesmo lugar – sob a pilha de livros no criado mudo. O dia a dia era de frieza, mas o clima ficava definitivamente insuportável quando por algum motivo esquecia as calças ou bermudas largadas na sala.
Como um pedaço de carne arrancado de um corpo vivo e largado ao relento, os sentimentos do pai se deterioravam a cada instante. O amor dos primeiros anos se transformou inicialmente em tristeza. Depois veio o ressentimento. Agora Marcos nutria pelo filho um sentimento confuso – mistura de angústia e culpa que degenerava em ódio quando ele lembrava de tudo pelo que passaram nos anos recentes. Um simples olhar do rapaz era suficiente para deixá-lo irritado, com vontade de esbofetear João até afastar daquele rosto qualquer tentativa de um sorriso.
Ana não merecia aquela vida. Ele não merecia. João, tão jovem, muito menos. Mas as coisas são assim: nossos atos e erros têm consequências e precisamos conviver com elas. Não é possível, como faziam a mulher e o filho, fingir que tudo está certo, que é possível seguir adiante.
-Eu queria que as coisas entre eu e ele voltassem ao normal, mas isso nunca vai acontecer, disse Marcos.
Ana estava de costas, fingindo dormir, e repetiu a frase de todos os dias:
-Dê um tempo a vocês. Tente entender o João. Ele gosta de você, precisa da sua companhia.
Tempo era tudo o que Marcos podia dar ao filho. Mas dois anos já haviam se passado e a situação era a mesma – ou pior. No início a tragédia comum até reforçou os laços familiares. Todos se apoiavam mutuamente. Mas quando Marcos saiu do hospital, sem sequelas importantes, via censura em cada gesto, em cada frase e até no choro do menino. Tudo o que João fazia era uma afronta a ele.
Em mais uma noite de insônia, repassou inúmeros episódios daqueles últimos meses. Ele também havia perdido muita coisa: quatro dentes, a sensibilidade na mão direita, a tranquilidade de deitar e dormir de imediato, o sonho do filho jogador de futebol.
Pela manhã, esperou o máximo que pode para sair da cama. Não adiantou. Estava na mesa do café quando ouviu a porta do quarto do filho abrir e o barulho característico dos deslocamentos do rapaz. Marcos fixou os olhos no fundo da caneca de café e preferiu não ver quando o jovem entrou se arrastando na sala, beijou a mão da mãe, parou a seu lado por um instante e, sem dizer palavra, foi até o sofá. Engatou as próteses já cobertas pelo jeans nos dois pedaços de carne que pendiam de sua cintura, pegou a mochila, beijou a testa da mãe, encostou de leve no ombro do pai e foi para a escola
Marcos, que contava trezentos e 22 dias de convívio com a culpa pelo acidente, mais uma vez viu o menino a seu lado, preso pelas pernas às ferragens do carro, chorando, apavorado enquanto Marcos segurava sua mão. Tirou os olhos do fundo da caneca e encarou para Ana. Como sempre, ela parecia censurá-lo por todo o mal que havia feito à família. Não disse nada – não era preciso. Saiu logo em seguida, quando teve certeza que o menino não estava mais por perto.
