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Coluna Leitura | Longe da Árvore: um livro fora de hora
18 de Novembro de 2022

Coluna Leitura | Longe da Árvore: um livro fora de hora

Tolerância e disposição para ouvir diferentes pontos de vista: a receita infalível de Andrew Solomon

Por Rogério Kiefer 18 de Novembro de 2022 | Atualizado 18 de Novembro de 2022

Longe da Árvore, de Andrew Solomon, é um livro totalmente inadequado para os nossos dias. Lançado em 2012, o volume tem mais de mil páginas. Um desperdício, quase um atentado ao pudor, principalmente se considerarmos que hoje é possível explicar tudo e qualquer coisa – seja a guerra da Ucrânia, a derrota do Figueirense ou a política macroeconômica ideal para o País – em um tweet de 280 caracteres. 

Ainda mais ultrapassada é a maneira como o autor trata os temas que aborda. Salomon não distribui certezas – em vez disso, espalha dúvidas. Pior: o autor não julga e separa o certo e o errado. Ele tem suas próprias crenças e opiniões, que surgem aqui e ali ao longo do texto, mas dá espaço para diferentes visões sobre os temas que trata. Quem lê Longe da Árvore é obrigado a pensar e repensar e avaliar e reavaliar suas próprias convicções – e vez ou outra acaba um capítulo desprovido de qualquer certeza sobre quem é vilão ou mocinho na história. Convenhamos: um completo despropósito quando basta entrar em um grupo de whatsapp para separar os heróis dos bandidos. 

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Solomon também parece efetivamente disposto a ouvir e levar em consideração o que dizem seus entrevistados e é tolerante – manifestações do mais rematado passadismo. 

Longe da Árvore, de Andrew Solomon, é um livro totalmente inadequado para os nossos dias – e o problema são nossos dias, não o livro. 

O inspirado título é uma referência invertida ao ditado que diz que o fruto (filho) nunca cai longe do pé (os pais). Mas o que acontece quando há uma “quebra dessa expectativa”? Como pais e mães constroem – ou não – laços de amor e companheirismo com os filhos que não são exatamente como o esperado? 

Solomon ouviu mais de 300 pessoas e consultou uma pilha enorme de livros, citados em dezenas de páginas de bibliografia, para falar de casos de filhos com síndrome de down, surdos, criminosos, anões, transexuais, gerados a partir de estupros, geniais e esquizofrênicos. São indivíduos que não têm o que o psicólogo chama de identidade vertical com os familiares. Em vez disso, integram grupos que se identificam de maneira horizontal. 

Para desespero dos adeptos de bobagens de auto-ajuda do instagram, o que se vê não são caminhos simples ou soluções alicerçadas no pensamento mágico. Em vez disso, muitas vezes há angústia, ressentimentos e incompreensão de parte a parte. Mas também há inúmeros casos de força, respeito, aceitação ou resignação. A solução das “crises” é construída – e resulta muitas vezes em laços de amor bastante fortes. 

Uma das histórias mais marcantes é a dos pais e dos próprios jovens que mataram colegas na escola de Columbine, tragédia conhecida, mas que ganha novas nuances.

Solomon ouve pai e mãe, vizinhos e profissionais da escola e não condena a priori (aqui não se fala de questões judiciais, óbvio) nem catequiza. Em vez disso, conta a história dos rapazes, fala dos desafios enfrentados pela família e mostra até atitudes pouco aceitáveis de moradores da cidade. Gente que por medo, revolta ou indignação toma atitudes que beiram o crime. 

Nesse e em outros capítulos, Solomon mostra inúmeros pontos de vista – alguns conflitantes entre si, mas todos tratados com respeito, sem menosprezo. Também levanta uma questão controversa, mas discussão essencial para o futuro. Diante dos avanços científicos, que nos permitem identificar genes associados a diferentes características do indivíduo, até que ponto é válido, ético ou moralmente aceito agir de forma ativa para “corrigir” quem ainda nem nasceu?  

No último capítulo, o autor fala da própria família – e torna ainda mais rica a experiência do leitor. A aposta corajosa de tratar problemas pessoais em público, diga-se, já rendeu um clássico – O Demônio do Meio Dia – lançado há duas décadas e responsável por ensinar a muita gente uma nova maneira de ver a depressão. 

Agora, o escritor aborda os desafios que ele e o marido enfrentaram para formar a própria família. Inseguranças, desencontro de expectativas, necessidade de harmonizar relações entre pessoas muito diferentes entre si. Ele não “doura a pílula”, nem foge de questões difíceis. Mas mostra que há, sim, possibilidade de construir relações saudáveis e felizes apesar dos percalços que a vida nos prega. 

Solomon é especialista em alimentar dúvidas e obrigar o  leitor a quebrar a cabeça. Há maior qualidade para um pensador?

 

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