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Coluna Leitura | Brasil: o País da crônica
03 de Novembro de 2022

Coluna Leitura | Brasil: o País da crônica

A boa crônica é mais ou menos isso: o aproveitamento artístico de um fato que parece banal a muitos, mas que ganha profundidade e peso sob o olhar do autor.

Por Rogério Kiefer 03 de Novembro de 2022 | Atualizado 03 de Novembro de 2022

Florianópolis amanheceu sem nuvens e com vento frio no feriado. No Centro quase sem carros, o silêncio é quebrado apenas por um martelete hidráulico usado na obra do vizinho – sujeito insensível, que começou a trabalhar pouco antes das oito e desde então não deixa mortos ou vivos aproveitarem umas horas a mais de sossego no Dia de Finados. Na mesa do café, leio a orelha do livro e descubro que eu e o Antônio Prata nascemos no mesmo ano.

Descoberta desimportante para a maioria da humanidade. Mas não para quem precisa entregar a coluna semanal sobre leitura para o Acontecendo Aqui. Afinal, o Antônio Prata é dos grandes cronistas em atividade hoje no País. E uma descoberta banal, como o fato de os dois termos nascido em 1977, parece bom ponto de partida para falar desse gênero tão bem adaptado ao gosto do brasileiro.

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Coincidência ou não, há 45 anos também surgiu uma publicação que apostava alto na reunião de crônicas de mestres como Fernando Sabino, Rubem Braga e Carlos Drummond de Andrade. Reunidos em livros fininhos na série Para Gostar de Ler, sucesso de vendas nos anos 80 e 90, esses craques fizeram muita gente, principalmente jovens e adolescentes, criar o hábito da leitura. A série foi longeva, com volumes dedicados à poesia e ao conto, e segue na memória de muitos pré-envelhescentes graças principalmente às crônicas.

A crônica é leve (na maior parte das vezes), curta e pode tratar de qualquer assunto. A morte, o vizinho, o clima, o pássaro, o futebol, a lembrança, o amor, a mulher, o homem, deus e o diabo – tudo e qualquer coisa que exista sobre a terra e sob o firmamento é assunto para o gênero. Nascidas para o jornal (folhetim em tempos remotos, quando foi praticada até por Machado de Assis) as histórias traziam em seu DNA a condenação de uma vida curta.

Mas inúmeros autores mostraram que não é bem assim e que a perenidade depende do talento para a escrita e da capacidade de identificar o que há de essencial e humano mesmo em uma história trivial. Há livros de crônicas para todos os gostos, o que torna impossível fazer uma lista de sugestões completa. Mas vão a seguir alguns pitacos:

Unanimidade, Rubem Braga (Ai de Ti, Copacabana, Recado de primavera, A Borboleta Amarela, entre outros) falou da praia, do bar, dos amigos, e dos pássaros. É lírico, leve e poético – talvez soe até ingênuo para tempos de tanto cinismo como o que vivemos.

Vinícius de Moraes não foi dos mais prolíficos no gênero, mas tem pelo menos uma obra-prima – Para Viver um Grande Amor. O exemplar traz prosa e poesia e trata temas tão distintos quanto o amor, a saudade, a infância e um libelo contra as dietas baseadas em alface.

Luis Fernando Veríssimo é craque em duas fórmulas diferentes de crônica. Fala sobre a “vida real”, que na literatura pode até ser inventada, em inúmeros livros. Em paralelo, aposta com sucesso em personagens fictícios como os geniais Analista de Bagé, Ed Mort e a Velhinha de Taubaté – o primeiro um discípulo enviesado de Freud, o segundo uma versão brasileira dos grandes detetives ingleses e a última, uma ingênua senhora que acredita em tudo o que vê na TV.

Quando escreveu sobre futebol (A Pátria em Chuteiras) Nelson Rodrigues falou do jogo, mas também do País e dos brasileiros. Já Flávio José Cardoso e Sérgio da Costa Ramos contam casos da Ilha de Santa Catarina no bem-humorado Duas Violas Arteiras. Fatos do cotidiano, como a simples queda de uma vaca em um buraco, são matéria-prima suficiente para textos divertidos, um pouco nostálgicos da juventude e ricos em expressões locais.

A crônica é muito próxima do real e imediato e traz sempre de carona o tempo e as experiências do autor. A leitura de coletâneas pode ser esclarecedora ao mostrar como mudou o Brasil e a literatura ao longo dos tempos. É o caso de Boa Companhia, que inclui textos de Rachel de Queiroz, Cecília Meireles, Clarice Lispector, Mário de Andrade, Antônio Maria, Paulo Mendes Campos, Lima Barreto, Mário Prata, Arnaldo Jabor e outros 33 autores publicados desde os anos 30 até os recentes 2000 e poucos.

Nos anos dois e mil e poucos, diga-se, surgiram os primeiros livros do meu contemporâneo Antônio Prata. Nu, de botas, Meio Intelectual, Meio de Esquerda e Trinta e Poucos são alguns deles. Irônico e perspicaz, ele trata de temas da atualidade e aposta em um tipo de humor autodepreciativo que ecoa os personagens um tanto desajustados do Woody Allen.

Há também espaço para algum lirismo, principalmente ao falar da infância ou da família. Em uma crônica endereçada ao filho, Daniel, Prata escreve: “Não é nenhuma história extraordinária a que vou te contar. É uma história simples, feita de elementos simples, como é feita a maior parte da vida da gente, esses 99% que a gente desdenha, sempre esperando por acontecimentos extraordinários. Mas acontecimentos extraordinários são raros, como a própria palavra extraordinário já diz, aí a vida passa e a gente não aproveitou”.

A boa crônica é mais ou menos isso: o aproveitamento artístico (cômico, criativo, lírico, crítico, apaixonado) de um fato que parece banal a muitos, mas que ganha profundidade e peso sob o olhar do autor.

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