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Coluna Leitura | Pense outra vez!
13 de Outubro de 2022

Coluna Leitura | Pense outra vez!

Que tal fazer uma bela tatuagem com o rosto de seu ídolo?

Por Rogério Kiefer 13 de Outubro de 2022 | Atualizado 13 de Outubro de 2022

O bom-senso – tão maltratado, coitado – aconselha: manifestações de admiração explícita devem ficar restritas a artistas que já partiram dessa para uma melhor – ou para uma pior, vá saber. O ditado ensina: enquanto há vida, as chances de cometer uma grande bobagem, capaz de indispor admirador e admirado para todo o sempre, surgem de onde menos se espera – e de onde mais se imagina também, claro.

Imagine, para entender melhor o dito acima, o dia a dia do indivíduo que, entusiasmado pela Panela Velha ou pela Maria do Carmo, a Rainha da Sucata, tatuou o rosto do Sérgio Reis ou da Regina Duarte na coxa direita. Não um desenho tímido qualquer, mas um grito de paixão em forma de rabiscos eternos. Resultado: agora, em dias de sol a pino, 40 graus celsius na cabeça, resta ao sujeito ir à praia de calça jeans.

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Melhor não arriscar. Depois de morto, é pouco provável que o cantor, escritor, compositor ou pintor decepcione quem quer seja.

A bem da verdade, alguns anos no além podem até fazer bem à imagem de um autor. O tempo permite ao leitor/ouvinte/espectador abstrair pontos polêmicos da biografia do artista e apreciar sem resistências externas as qualidades de sua obra.

De tanto ouvir um querido e respeitado professor falar do entusiasmo de Nelson Rodrigues pela ditadura, por anos evitei qualquer texto do dramaturgo e cronista. Abre parêntese: Nelson aprendeu da pior forma o que é uma ditadura quando seu próprio filho foi preso e torturado pelos militares. Fecha parêntese.

Pois bem: décadas passadas e adormecida a má vontade com o autor, O Beijo no Asfalto revela-se um retrato e tanto dos moralistas de meia pataca que andam por aí. O ponto de partida é um acontecimento inusitado. Por um acaso, o protagonista presencia um atropelamento e atende ao pedido da vítima – o tal beijo na boca, em plena avenida. A partir daí, tido e havido como homossexual, tem sua vida desgraçada por manifestações mais ou menos diretas de preconceito e incompreensão.

Nas crônicas, Rodrigues explorou outras perversões dos cidadãos de bem, das grã-finas com narinas de cadáver e dos canalhas ancestrais e foi um inspiradíssimo comentarista de futebol. Curiosidade para o ano de Copa do Mundo. Em março de 1958, quando Pelé era ainda relativamente desconhecido, foi Nelson Rodrigues quem primeiro chamou o jovem santista de O Rei do Futebol. “O que nós chamamos de realeza é, acima de tudo, um estado de espírito. E Pelé leva sobre os demais jogadores uma grande vantagem: – a de sentir-se rei da cabeça aos pés”.

O texto segue destacando as qualidades do jogados e encerra profético: “Com Pelé no time, e outros como ele, ninguém irá para a Suécia com a alma dos vira-latas. Os outros é que tremerão diante de nós”. Poucos meses depois o Brasil conquistaria pela primeira vez o mundial de futebol.

Lá se foram algumas dezenas de linhas e finalmente chego ao ponto. Deixado de lado o bom-senso, tempos atrás corri o risco e decidi bajular um artista, no caso, o Ruy Castro. Ele esteve por aqui, em Palhoça, para um evento literário que se anunciou grandioso, mas que teve vida curtíssima, não chegando sequer à segunda edição.

Acompanhado pela mulher, a também escritora Heloísa Seixas, Ruy bateu papo com a plateia por quase uma hora e depois foi simpático e solícito ao atender alguns leitores com seus exemplares em busca de autógrafo – eu entre eles.

Mas por que correr o risco de coletar dedicatória – e expor nas redes sociais, claro – e manifestar admiração por um sujeito que pode a qualquer momento fazer uma grande bobagem (como qualquer um de nós pode, diga-se de passagem)?

Simples.

O Ruy Castro é um dos grandes escritores brasileiros da atualidade, principalmente de crônicas e não ficção. Junto com Fernando Moraes, ajudou a colocar as biografias em um patamar de excelência – alcançado por outros poucos autores que estão na ativa.

Carmem Miranda, Garrincha e Nelson Rodrigues ganharam dele suas biografias definitivas. Nos ótimos A Noite do Meu Bem e A Onda que Ergueu no Mar ele deu aulas sobre o samba-canção e a bossa nova – e de quebra esboçou um perfil bastante alentado do João Gilberto (depois biografado por Zuza Homem de Mello no ótimo Amoroso). Metrópole a Beira Mar celebra o lado moderno e cosmopolita do Rio de Janeiro dos anos 1920 e é uma declaração de amor à Cidade Maravilhosa.

E aí talvez esteja o grande charme do Ruy Castro escritor. Não bastasse a capacidade de reunir e organizar toneladas de informação, ele tem um estilo muito próprio. Em crônicas, comentários sobre livros (O Leitor Apaixonado foi citado aqui) e mesmo nas biografias, que exigem muito mais precisão, há sempre humor e leveza encantadores – como se o “espírito carioca”,  se é que existe algo assim para além do estereótipo, pudesse ser impresso em letra de forma.

Ruy Castro tem 74 anos. As estatísticas indicam que ele tem um bom tempo pela frente – e portanto ainda pode fazer suas bobagens, o que torna arriscado qualquer ato mais expansivo e definitivo de tietagem. Por hora, a ideia de homenagear a eleição para a Academia Brasileira de Letras (ABL) com a tatuagem do seu rosto na coxa direita permanece adiada.

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