Mantenha a calma, não mate o mensageiro e aceite a dura realidade: Santa Catarina não conquistou até hoje grande relevância no cenário da literatura brasileira. Há pouco o escritor Godofredo de Oliveira Neto, nascido em Blumenau, tomou posse da cadeira 35 da Academia Brasileira de Letras (ABL). Antes dele, o único “imortal” catarinense foi Lauro Müller, que não tinha na lista de seus inúmeros cargos e títulos honoríficos nem o talento de escritor, nem a autoria de livros.
Literatura não é ciência exata e a simples ausência de nomes na ABL por certo é insuficiente para validar a tese de nossa pouca importância no cenário nacional. Vale então listar alguns dos grandes talentos da história. Machado de Assis e Lima Barreto eram cariocas. Graciliano Ramos é alagoano. Guimarães Rosa, mineiro, e João Cabral de Melo Neto, pernambucano. Clarice Lispector nasceu na Ucrânia e Érico Veríssimo, no Rio Grande do Sul. Carlos Drummond de Andrade era de Minas Gerais e Vinícius de Moraes, carioca. Entre os vivos, Conceição Evaristo é mineira, Miltoun Hatoum, manauara, Veríssimo, gaúcho e Daniel Galera, paulistano (em nosso favor, conste que ele esteve em Garopaba para escrever Barba Ensopada de Sangue).
Nesse momento, alguém mais indignado pode indicar minha ignorância ancestral e dizer que tivemos Tito Carvalho, regionalista de talento, autor do ótimo Vida Salobra; Salim Miguel, C. Ronald e Cruz e Sousa. Vivos, temos Carlos Henrique Schroder, já bastante premiado; Romeu Martins, citado em coluna por aqui; Norma Bruno, das mais sensíveis cronistas e poetisas que andam por aí; Sérgio da Costa Ramos e Oldemar Olsen Jr, que dispensam apresentações, e o premiado Cristovão Tezza, que muitos pensam ser paranaense. (Perdoem os esquecimentos: listas feitas de memória são sempre incompletas).
Importante, para a crônica seguir, que a preocupação com a justiça da análise ou a exatidão dos fatos não atrapalhem a linha de raciocínio. Apesar dos talentos que tivemos e temos, ninguém cita Santa Catarina quando perguntado sobre a terra onde nasce a melhor literatura brasileira.
A grande questão é: por que não somos lembrados?
Corro o risco de errar mais uma vez, o que não chega a ser fato surpreendente na minha rotina, para vaticinar: o que nos falta mesmo é uma “cena literária”. A qualidade da produção artística não nasce por geração espontânea – e muito menos alcança projeção sem apoio e suporte. Há que se ter um ambiente favorável para o avanço dos escritores por aqui, com editoras fortes, espaços para discussão e divulgação de livros (vale a lembrança aqui do podcast Posfácio, produção local que traz conversas sobre livros para o streaming), livrarias com acervo variado e iniciativas de estímulo à produção. Um gênio pode até nascer e despontar em ambiente desfavorável. Mas um ambiente literário não é habitado apenas por gênios – eles sobressaem em meio a uma “fauna” mais homogênea, com autores esforçados e mais ou menos talentosos.
Aqui um mea-culpa. Convicto da tese acima, tempos atrás tentei com alguns amigos reunir autores catarinenses que tinham um interesse comum – o fortalecimento da literatura por aqui – para pensarmos juntos em ações objetivas em prol dos livros. Sem surpresa alguma, errei mais uma vez – e o tal grupo se esfacelou depois da primeira reunião – não sem antes eu ser identificado e denunciado como um marxista-leninista-trotskista renitente, viúva do comunismo e apaixonado por Fidel Castro.
Mas há boas notícias a comemorar. Há dias caiu na minha caixa de mensagem um release sobre lançamento de livro marcado para a próxima-sexta-feira, dia 7, na Fundação Cultural BADESC. Diz o texto que o lançamento é “do livro Conto e Poesia, resultado do 10º concurso literário realizado pelo Sindicato dos Eletricitários de Florianópolis (Sinergia).
A publicação conta com a participação de 43 autores de todas as regiões de Santa Catarina. De acordo com o Sindicato, 349 escritores participaram da seleção, que teve 873 trabalhos inscritos para a seleção, sendo 594 poesias e 279 contos”. Não sei vocês, mas acho de grande valia constatar que uma entidade mantém há anos um concurso que estimula tanta gente a pensar e produzir literatura.
Também alvissareira é a notícia da abertura, no Centro de Florianópolis, da Casa da Literatura Catarinense Poeta Cruz e Sousa. O espaço, gerenciado pela Fundação Catarinense de Cultura (FCC), deve abrigar lançamentos e celebrar a produção catarinense.
As primeiras notícias dão conta de que havia poucos escritores na inauguração. Resta a torcida para que o pessoal se organize, ocupe a Casa, desenvolva iniciativas de valorização da cultura catarinense e lance as bases para que daqui a algum tempo Santa Catarina tenha um “ecossistema literário” que garante maior visibilidade ao talento local.
