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Coluna Leitura | O Sol é Para Todos?
16 de Setembro de 2022

Coluna Leitura | O Sol é Para Todos?

Crianças espertinhas nem sempre são tão chatas quanto nos programas de calouros

Por Rogério Kiefer 16 de Setembro de 2022 | Atualizado 16 de Setembro de 2022

Quem já enfrentou 15 minutos de um daqueles programas de calouros comandados pelo Raul Gil, com petizes espertinhos, cheios de gracejos e sacadas inteligentes, sabe que a convivência com crianças espirituosas pode beirar o insuportável. A mistura de ingenuidade e vaidade intelectual, muitas vezes incentivada por papais e mamães sem noção, é capaz de implodir a paciência de qualquer um.

Isso ajuda a explicar porque há poucas histórias narradas por crianças na literatura não-infantil. Talvez a explicação seja outra, diversa e mais complexa, o que tornaria a tese totalmente furada. Mas não importa: o essencial é ter um ponto de partida para a mudança de 180 graus na linha de raciocínio que será dada agora. 

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Há casos, porém, em que a definição de um narrador criança faz toda a diferença. O excelente O Sol é Para Todos por certo não teria a mesma qualidade sem Scout, menininha que conta a história. No início quase pueril, ela conta episódios da infância, do relacionamento com o irmão mais velho e um amigo de brincadeiras de cidadezinha do interior. Espiar uma casa abandonada e seu morador misterioso e assustador (ao menos do ponto de vista da narradora) são as grandes emoções possíveis. Uma certa inocência que torna ainda mais forte, pelo contraste, o que vem em seguida. 

Porque a obra vai muito além disso. Em plena década de 30, em uma cidadezinha do Sul do país, região marcada pelo racismo, um homem negro é acusado pelo estupro de uma mulher branca. As provas são inconsistentes, mas na prática a defesa do rapaz, tarefa assumida pelo pai da narradora, Atticus Finch, é tarefa desde o início fadada ao fracasso. 

Homem respeitado na cidade, o advogado passa a ser visto com certa desconfiança e hostilizado por outros moradores. Há na trama uma salada mista de perversidades: preconceito racial, preconceito social, injustiça, intolerância, entre outros sentimentos pouco nobres. A certa altura, uma das moradoras é direta ao atacar a pequena Scout e o irmão, Jem, de 12 anos.

“A que ponto chegamos: um Finch indo contra seus iguais. É demais! – Ela pôs a mão na boca e, quando tirou, fez um comprido fio de cuspe. – Seu pai é igual aos pretos sujos que defende!”. A idosa segue no ataque e fala da degradação moral da família. 

Nesse cenário, Scout e suas tiradas e atitudes – às vezes perspicazes “demais”, outras vezes desconcertantes pela ingenuidade – são um contraponto a reforçar o desatino dos adultos. O irmão, Jem, cumpre papel semelhante e também faz perguntas e comentários incômodos, típicos de quem ainda não “amadureceu”. Já o pai, um homem justo, mas “vencido” pela realidade, luta com o que tem às mãos, mas não é capaz de escapar completamente de certa conformidade.

“Existem coisas no nosso mundo que fazem os homens perderem a cabeça; não conseguiriam ser justos nem se quisessem. Nos nossos tribunais, quando se trata da palavra de um branco contra a de um negro, o branco sempre vence. É horrível, mas é a vida”.     

Lançado nos anos 60, quando o movimento pelos direitos civis começava a ganhar força nos Estados Unidos, O Sol é Para Todos venceu o prêmio Pulitzer em 1961 e é listado entre as grandes obras da literatura americana de todos os tempos. 

Bem mais leve, mas também ótima leitura, Enclausurado, de Ian McEwean, é outro livro com um narrador criança que faz a diferença. No caso, o responsável por contar a história sequer é nascido. 

Logo no início o leitor já sabe que o menino acompanha de dentro do útero a trama da mãe e do amante que planejam matar seu próprio pai. Inteligente e maduro para a falta da idade,  o feto conhece e aprecia oa vinhos bebidos pela mãe e acompanha a política internacional. Também faz comentários espirituosos sobre a pouca inteligência do amante da mãe e avalia maneiras de se vingar. Enquanto permanece na barriga, porém, convive com outras preocupações: 

“Nem todo mundo sabe o que é ter o pênis do rival do seu pai a centímetros do seu nariz. A essa altura tardia, eles deviam estar se contendo por minha causa. A cortesia, senão um motivo clínico, assim exigiria. Fecho os olhos, aperto as gengivas, me apoio nas paredes uterinas. Essa turbulência sacudiria as asas de um Boeing. Minha mãe estimula seu amante, o incita com gritos dignos de um parque de diversões. Parede da Morte! Toda vez, a cada movimento do pistão, temo que ele rompa a barreira, perfure os ossos ainda moles de meu crânio e irrigue meus pensamentos com a essência dele, com o creme abundante de sua banalidade.”

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