Dia desses, em um grupo de whatsapp qualquer, daqueles que têm mais membros do que aconselha o bom-senso, o sujeito furibundo declarou em alto e bom som: “não perco tempo ouvindo o que tem a dizer o fulano, a beltrana, a sicrana…” A lista de jornalistas proscritos era longa e o critério de seleção, simples: quem discordasse das crenças do cidadão, empedernido entusiasta do presidente da República, estava irremediavelmente condenado à danação.
Livros registram duas passagens bastante interessantes ocorridas em Florianópolis e que tem como ponto em comum: a dificuldade – ou impossibilidade – de conviver com ideias desagradáveis – e com os autores desses raciocínios. A primeira é curiosa.
No O Leitor Apaixonado, Ruy Castro conta a história da vinda de Nelson Rodrigues para a noite de autógrafos de O Reacionário, lançado em 1977. Mesmo bastante doente, o escritor passou horas e horas e horas na estrada para chegar a Santa Catarina. Aceitou o sacrifício do longo trajeto rodoviário para não ter de enfrentar o medo do avião. Isso, porém, não era o pior à espera do autor d’O Beijo no Asfalto e de crônicas memoráveis.
Vale citar o Ruy Castro, que conta o ponto alto da passagem de Nelson por Florianópolis:
“Chegaram no dia seguinte e, apesar do cansaço, poucas horas depois, Nelson sentou-se a uma mesinha na entrada da livraria, à espera de seus admiradores. Pois sabe quantas pessoas acorreram para que ele autografasse O reacionário? Nenhuma.
Fico imaginando o que não se terá passado na cabeça de Nelson (a decepção, a amargura, a dor) nas longas horas em que ficou ali sentado, com uma caneta cheia de tinta, uma pilha de livros sobre a mesa e ninguém chegando para falar com ele. E nem quero pensar na tremenda sensação de solidão que terá sofrido na viagem de volta ao Rio”. O boicote, explica o biógrafo de Nelson, era reflexo das opções políticas do dramaturgo, um reacionário hereditário.
O segundo caso é bem mais grave. Nos primeiros tempos da ditadura, defensores dos bons costumes invadiram a livraria Anita Garibaldi, no Centro da Capital, e jogaram na rua exemplares considerados subversivos. Em seguida, queimaram as publicações “comunistas” em plena Praça XV de Novembro. O relato do episódio consta do romance Primeiro de Abril, Narrativas da Cadeia, de Salim Miguel, que anos antes havia sido dono da livraria.
Infelizmente, como mostra a tosca mensagem recebida no whatsapp, a intolerância a determinadas ideias tem um passado vergonhoso e um presente preocupante. Meses atrás viralizou nas redes sociais, sob aplausos insuspeitos, o vídeo de uma senhorinha que transformou em cinzas um exemplar do Paulo Coelho – simplesmente por discordar de uma fala política do autor.
Em tempos assim, vale a pena a leitura do Amós Oz, que alonga e aprofunda a discussão sobre tolerância no breve Mais de Uma Luz – fanatismo, fé e convivência no século XXI:
“Fanáticos religiosos e fanáticos ideológicos de todos os tipos cometem atos criminosos de terrível violência não só porque abominam os hereges, ou o Ocidente, ou os Muçulmanos, ou os esquerdistas, ou os sionistas, ou os LGBTs. Eles são sanguinários sobretudo porque querem salvar o mundo imediatamente. Salvar até os hereges. Tirá-los dos abismos de sua heresia. Levar todos nós para o caminho do bem”.
Esse caminho, claro, é aquele definido como o adequado pelo “fanático” – e nenhum outro.
“O fanático não quer que haja diferenças entre as pessoas. Sua vontade é que sejamos todos ‘como um só homem´”.
O antídoto, diz o israelense, inclui a convivência equilibrada com grupos que nos “puxam” para a uniformidade de pensamentos, como a família, o círculo de amigos, entre outros, complementada pela disposição e abertura para conhecer o novo, entender o diferente, olhar sem preconceito para o desconhecido. Oz cita um poeta de Israel, Iehuda Amichai:
Do lugar no qual temos razão
jamais nascerão
flores na primavera.
O lugar no qual temos razão
é duro e pisoteado
como um quintal.
Viagem de Goethe ao Brasil: uma Jornada Imaginária
Recém lançado por aqui, o livro do escritor alemão Sylk Schneider mostra como Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832) era um apaixonado pelo Brasil. Autor romântico – diz a lenda que apaixonados sofredores cometeram suicídio depois de lerem Os Sofrimentos do Jovem Werther – o alemão nunca estece por aqui, mas trocou correspondências com viajantes como Alexander Von Humboldt, Carl von Martius, Eschwege e o Príncipe Maximilian de Wied. Obra da Editora Nave, dos escritores catarinenses Dennis Radünz e Patrícia Galelli, os exemplares são lindos, com capa dura e diversas ilustrações. A publicação foi viabilizada pela Lei Federal de Incentivo à Cultura, a Lei Rouanet, com patrocínio da Multilog.
Em breve, depois da leitura, falo mais sobre o livro.
