
Divulgação/DarkSide Books
A editora DarkSide lançou tempos atrás um belo volume de contos de terror garimpados pelo jornalista e escritor catarinense Romeu Martins. A obra – Medo Imortal – tem esse nome justamente por reunir textos de pioneiros da Academia Brasileira de Letras (ABL) – os ditos imortais. O índice do livro inclui figurões como Machado de Assis, Coelho Neto, João do Rio e Humberto de Campos – um verdadeiro clube do bolinha, com a valiosa exceção de Júlia Lopes de Almeida.
A inclusão da autora do assustador Os Porcos na seleção, mais que merecida, não corrige nem compensa uma injustiça histórica: Júlia teve vetado o ingresso na entidade por ser mulher.
Não por acaso, em três anos Medo Imortal teve grande repercussão entre os estudiosos e entusiastas da literatura de horror no País. Em 500 páginas há uma mostra dos diversos caminhos tomados pelo terror, muitas vezes visto como algo menor no Brasil, mas que tem produção bastante interessante por aqui. Um dos mais célebres romances de Machado de Assis – Memórias Póstumas de Brás Cubas – é narrado por um defunto. A Nova Califórnia, de Lima Barreto, inclui cenas de castas noivas cavoucando cemitérios.
Na infância, resultado de equívoco cometido pela vizinha desavisada e pouco disposta a gastar tempo escolhendo presentes para o filho dos outros, ganhei de aniversário um exemplar do Monteiro Lobato, muito em alta graças a uma das diversas adaptações do Sítio do Pica Pau Amarelo produzidas para a TV. Em vez das aventuras da Emília, porém, os contos da edição de Urupês incluíam os ótimos e assustadores Bocatorta e A Vingança da Peroba. Receita mais do que certa para noites e noites de insônia infantil.
Histórias de terror assustam muita gente há tempos. A Metamorfose, de Kafka, Frankstein, de Mary Shelley e Drácula, de Bram Stoker, são alguns dos clássicos do gênero.
Acontecimentos fantásticos, monstros e extraterrestres apavoram, mas tem lá suas limitações impostas pela falta de verossimilhança. Mais angustiantes são as histórias que exploram o potencial humano para a maldade. Em O Senhor das Moscas, por exemplo, mais do que a violência propriamente dita, o que causa desconforto é a proximidade com o pior do humano. Ao ler a história do grupo de jovens presos em uma ilha deserta após um acidente aéreo, o leitor pensa que, dadas as mesmas Condições Normais de Temperatura e Pressão, poderia agir como alguns dos piores personagens.
Há quem diga que esportes são a versão civilizada da guerra ou da velha disputa por territórios, alimento ou parceiros para acasalamento do tempo das cavernas. Uma válvula de escape para o homem extravasar seus piores instintos sem sujar as mãos de sangue. Há paralelo possível com a literatura de horror – o que está longe de ser um demérito para o gênero.
Em comparação com exemplares de não ficção, o desequilíbrio do protagonista do Coração Delator, no fim das contas incapaz de conviver com a culpa, parece uma versão ingênua da realidade.
Opções não faltam para quem se interessa por conhecer o que só um homem é capaz de fazer. O Efeito Lúcifer, do psicólogo Philip Zimbardo, é uma “biografia” da maldade. O autor mostra como a arrogância, a certeza da impunidade, a falta de empatia, a inveja, o medo e outros fatores sociais contribuem para comportamentos violentos. Ele não livra a cara dos culpados, mas lança uma ideia interessante. Em vez de falar de maçãs podres que comprometem a fruteira, diz que muitas vezes o cesto contaminado pode acelerar a degradação das frutas (uma metáfora de fácil compreensão e comprovação por qualquer leitor de jornal).
Zimbardo fala que há três verdades incontestáveis sobre a psicologia humana. “A primeira é que o mundo está desde sempre pleno de maldade e bondade. A segunda é que a fronteira entre o bem e o mal é tênue e permeável. A terceira é que os anjos podem se converter em demônios e, o mais difícil de imaginar, que os demônios podem se converter em anjos”.
Quando a maldade toma conta da alma humana, a tragédia assusta mais que qualquer monstro imaginado pelo melhor dos autores. Prêmio Nobel da Paz, Eli Wiesel contou a experiência nos campos de concentração alemães da Segunda Guerra no angustiante e terrível A Noite. As cenas são chocantes: bebês jogados para o alto e metralhados; recém-nascidos lançados em fogueiras; homens sendo selecionados para fornos crematórios; fuzilamentos e indivíduos expostos a suplícios os mais variados.
O pior da humanidade, que aterroriza e assusta, precisa ser conhecido e relembrado.
