Há mais de mil anos a humanidade acreditava que a Terra era plana. A partir dessa premissa, as pessoas organizavam suas atividades e se deslocavam, utilizando algumas cautelas, traçavam rotas e estratégias tendo em vista os limites e as interações com o ambiente, como o “conheciam” então. Seus deuses e mitos espelhavam as forças coerentes com essa perspectiva.
Passados alguns séculos, reconhecendo a existência de outros astros e admitindo o formato de globo, a Terra passa a ser o centro do Universo. Essa concepção expandia os horizontes físicos, mas mantinha uma visão distorcida da importância do planeta. Nesse período foram urdidas muitas guerras em busca de domínio e poder soberano, enquanto a técnica se aperfeiçoava e o comércio se multiplicava, gerando naquela sociedade objetivos e valores próprios.
Já há algum tempo, aproximadamente 500 anos, tomamos ciência de que nosso planeta pertence a um sistema solar e que portanto, é em redor do Sol que a Terra gira. Mas apenas para um pequeno contingente de cientistas e visionários, essa notícia foi recebida com entusiasmo. São célebres os sacrifícios medievais relacionados às práticas e divulgação das ideias insurgentes.
Essas ideias-chave pertencem a diferentes paradigmas científicos, retratam uma dada situação cosmológica. Personagens como Aristóteles, Copérnico, Galileu Galilei, Kepler, Newton, Einstein, revolucionaram não apenas o mundo das ciências. O conhecimento tomou caminhos diversos em decorrência das substanciais mudanças que cada nova cosmovisão trazia, e com ele o sistema de verdades, os pressupostos do agir, a orientação ética, etc.
Quanto a nós, que vivemos no século XXI, é simples e corriqueiro pensar a partir das premissas dos grandes gênios citados, mas ainda não assimilamos várias das novas teorias científicas que alteram a forma de compreender o universo, e a nós mesmos. É o caso das descobertas revolucionantes de Prigogine, de Niels Bohr, Boltzmann, Foerster, Heisenberg, Maturana e Varela, nas respectivas áreas, por exemplo[1]. De acordo com esse novo paradigma científico, é preciso considerar a complexidade, a instabilidade do mundo, e a intersubjetividade na constituição do conhecimento.
A contradição, a incerteza e a desordem identificadas no mundo físico, a intersubjetividade e a recursividade do processo de conhecimento, compõem um quadro bastante estranho para as mentalidades moldadas e familiarizadas com conceitos como objetividade, certeza e verdade.
A sociedade se complexifica no decorrer da nossa história e as interações se multiplicam nas instâncias práticas, ecológicas, econômicas, culturais, etc, fazendo surgir novos desafios: produzir alimentos para toda a humanidade sem afetar a biodiversidade e exaurir o solo; oferecer condições de vida de qualidade a todos respeitando as liberdades individuais e coletivas de cada povo; promover a paz sem ameaça de guerra; promover felicidade sem comprometer os recursos finitos da natureza. Essas questões requerem uma compreensão mais ampla e não linear de para chegarem a bom termo.
Tal como ocorreu em outros tempos, ignorar e temer as mudanças de paradigma é a reação primeira, naturalmente. Acontece que a mudança está em curso, e à medida que sabemos dela mudamos com ela. Mesmo o fato de não aceitá-la já implica que fomos por ela afetados.
Significa que, agindo recursivamente, o conhecimento novo que está no mundo exerce sobre nós sua influência e nos tornamos partícipes do processo, concordando ou não com os seus pressupostos.
Ignorar a profunda transformação na lógica de causas e consequências que o novo paradigma do conhecimento traduz não é uma opção. Portanto, quando a sustentabilidade entra em pauta, é certo: não podemos ficar de fora.
[1] Prigogine (estruturas dissipativas/química); Niels Bohr (paradoxos na microfísica); Boltzmann (desordem termodinâmica); Foerster (ontogênese); Heisenberg (princípio da incerteza/física); e, Maturana e Varela (teoria do observador/biologia).
